domingo, 29 de Junho de 2008
Octavio Paz - Poesia
VENTO, ÁGUA, PEDRA
A água perfura a pedra,
o vento dispersa a água,
a pedra detém ao vento.
Água, vento, pedra.
O vento esculpe a pedra,
a pedra é taça da água,
a água escapa e é vento.
Pedra, vento, água.
O vento em seus giros canta,
a água ao andar murmura,
a pedra imóvel se cala.
Vento, água, pedra.
Um é outro e é nenhum:
entre seus nomes vazios
passam e se desvanecem.
Água, pedra, vento.
Conversar
Em um poema leio:
Conversar é divino.
Mas os deuses não falam:
fazem, desfazem mundos
enquanto os homens falam.
Os deuses, sem palavras,
jogam jogos terríveis.
O espírito baixa
e desata as línguas
mas não diz palavra:
diz luz. A linguagem
pelo deus acesa,
é uma profecia
de chamas e um desplume
de sílabas queimadas:
cinza sem sentido.
A palavra do homem
é filha da morte.
Falamos porque somos
mortais: as palavras
não são signos, são anos.
Ao dizer o que dizem
os nomes que dizemos
dizem tempo: nos dizem,
somos nomes do tempo.
Conversar é humano.
(Trad. Antônio Moura)
Le Pont Mirabeau
Le pont Mirabeau
Sous le pont Mirabeau coule la Seine
Et nos amours
Faut-il qu'il m'en souvienne
La joie venait toujours après la peine
Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure
Les mains dans les mains restons face à face
Tandis que sous
Le pont de nos bras passe
Des éternels regards l'onde si lasse
Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure
L'amour s'en va comme cette eau courante
L'amour s'en va
Comme la vie est lente
Et comme l'Espérance est violente
Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure
Passent les jours et passent les semaines
Ni temps passé
Ni les amours reviennent
Sous le pont Mirabeau coule la Seine
Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure
Guillaume Apollinaire (1880 - 1918)
Jacques Brel - Bruxelles
Para a minha amiga Cristina... ela que não se cansa de nos presentear com as suas belas fotos...
Graças a ti acabo por conhecer um bocadinho essa vila maravilhosa onde moras, não é Portugal mas é bonito na mesma, Bom Domingo, Clo.
sábado, 28 de Junho de 2008
Barbara- Le mal de vivre
Ça ne prévient pas quand ça arrive
Ça vient de loin
Ça c'est promené de rive en rive
La gueule en coin
Et puis un matin, au réveil
C'est presque rien
Mais c'est là, ça vous ensommeille
Au creux des reins
Le mal de vivre
Le mal de vivre
Qu'il faut bien vivre
Vaille que vivre
On peut le mettre en bandoulière
Ou comme un bijou à la main
Comme une fleur en boutonnière
Ou juste à la pointe du sein
C'est pas forcément la misère
C'est pas Valmy, c'est pas Verdun
Mais c'est des larmes aux paupières
Au jour qui meurt, au jour qui vient
Le mal de vivre
Le mal de vivre
Qu'il faut bien vivre
Vaille que vivre
Qu'on soit de Rome ou d'Amérique
Qu'on soit de Londres ou de Pékin
Qu'on soit d'Egypte ou bien d'Afrique
Ou de la porte Saint-Martin
On fait tous la même prière
On fait tous le même chemin
Qu'il est long lorsqu'il faut le faire
Avec son mal au creux des reins
Ils ont beau vouloir nous comprendre
Ceux qui nous viennent les mains nues
Nous ne voulons plus les entendre
On ne peut pas, on n'en peut plus
Et tous seuls dans le silence
D'une nuit qui n'en finit plus
Voilà que soudain on y pense
A ceux qui n'en sont pas revenus
Du mal de vivre
Leur mal de vivre
Qu'ils devaient vivre
Vaille que vivre
Et sans prévenir, ça arrive
Ça vient de loin
Ça c'est promené de rive en rive
Le rire en coin
Et puis un matin, au réveil
C'est presque rien
Mais c'est là, ça vous émerveille
Au creux des reins
La joie de vivre
La joie de vivre
Oh, viens la vivre
Ta joie de vivre
sexta-feira, 27 de Junho de 2008
Bebido o luar...

Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.
Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.
Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.
Poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen -tela de Alphonse Osbert
quarta-feira, 25 de Junho de 2008
Maurice Bejart/Barbara
L´aigle noir
Un beau jour, ou peut-être une nuit,
Près d'un lac je m'étais endormie,
Quand soudain, semblant crever le ciel,
Et venant de nulle part,
Surgit un aigle noir,
Lentement, les ailes déployées,
Lentement, je le vis tournoyer,
Près de moi, dans un bruissement d'ailes,
Comme tombé du ciel,
L'oiseau vint se poser,
Il avait les yeux couleur rubis,
Et des plumes couleur de la nuit,
A son front brillant de mille feux,
L'oiseau roi couronné,
Portait un diamant bleu,
De son bec il a touché ma joue,
Dans ma main il a glissé son cou,
C'est alors que je l'ai reconnu,
Surgissant du passé,
Il m'était revenu,
Dis l'oiseau, ô dis, emmène-moi,
Retournons au pays d'autrefois,
Comme avant, dans mes rêves d'enfant,
Pour cueillir en tremblant,
Des étoiles, des étoiles,
Comme avant, dans mes rêves d'enfant,
Comme avant, sur un nuage blanc,
Comme avant, allumer le soleil,
Etre faiseur de pluie,
Et faire des merveilles,
L'aigle noir dans un bruissement d'ailes,
Prit son vol pour regagner le ciel,
Quatre plumes couleur de la nuit
Une larme ou peut-être un rubis
J'avais froid, il ne me restait rien
L'oiseau m'avait laissée
Seule avec mon chagrin
[Refrain]
Un beau jour, une nuit,
Près d'un lac, endormie,
Quand soudain,
Il venait de nulle part,
Il surgit, l'aigle noir...
terça-feira, 24 de Junho de 2008
segunda-feira, 23 de Junho de 2008
Avec le temps...

Avec le temps
Avec le temps, va, tout s'en va
Même les plus chouettes souvenirs ça t'as une de ces gueules
A la galerie je farfouille dans les rayons de la mort
Le samedi soir quand la tendresse s'en va tout' seule
Léo Ferré
talvez por isso "ele" é desde que o conheço o meu poeta interprete preferido, só que sou obrigada a discordar das suas belas palavras...
Eu diria avec le temps rien ne s´en va...
O tempo pode atenuar lembranças, mas quando os sentimentos são verdadeiros, nem o tempo pode arrancá-los de nós, mesmo que as pessoas morram, ficam sempre no nosso coração. Tenhamos e façamos todos boas amizades, podemos não saber o tempo que vão durar, ninguém pode prever o futuro, mas de todas elas, fica sempre algo de bom no nosso coração, qualquer coisa que nos faz acreditar que somos seres especiais, e isso é o maravilhoso da vida.
Aproveitem o sol, boa semana.
domingo, 22 de Junho de 2008
Procura a maravilha.
a barcos e bruma.
No brilho redondo
e jovem dos joelhos.
Na noite inclinada
de melancolia.
Procura.
Procura a maravilha.
Eugénio de Andrade
sábado, 21 de Junho de 2008
Verão de Antonio Vivaldi

Tela de J.W.Waterhouse- Boreas
Sob a dura estação, pelo Sol incendiada,
Lânguidos homem e rebanho, arde o Pino;
Liberta o cuco a voz firme e intensa,
Canta a corruíra e o pintassilgo.
O Zéfiro doce expira, mas uma disputa
É improvisada por Borea com seus vizinhos;
E lamenta o pastor, porque suspeita,
Teme feroz borrasca: é seu destino [enfrentá-la].
Toma dos membros lassos o repouso
O temor dos relâmpagos e os feros trovões;
E de repente inicia-se o tumulto furioso!
Ah! No mais o seu temor foi verdadeiro:
Troa e fulmina o céu, e grandioso [o vendaval]
Ora quebra as espigas, ora desperdiça os grãos [de trigo]
Para escrever as suas quatro estações, que são também as nossas, António Vivaldi ter-se-a inspirado,em quatro poemas, quando um com o nome de cada estação, sinceramente desconheço se os poemas são da sua autoria, pois a fonte onde fui colher este "Verão" nada diz a propósito. neste primeiro dia de verão deixo-o aqui, ilustrado com uma belíssima tela de J.W.Waterhouse
Se quiserem podem acompanhar a leitura do poema com um excerto da peça.
Vivaldi Summer III
-Marguerite Duras- Gallery
A felicidade é uma obra-prima: o menor erro falseia-a, a menor hesitação altera-a, a menor falta de delicadeza desfeia-a, a menor palermice embrutece-a.
Marguerite Duras
sexta-feira, 20 de Junho de 2008
A lavandeira da Noite / Noa & Carlos Nunez
Apesar de ser muito bonita esta melodia tem uma letra ARREPIANTE, só a deixo aqui porque a Noa faz uma belíssima interpretação e a letra liga com o percurso de vida do grande poeta Juan Gelman, tantos horrores na sua vida, ainda nós nos queixamos, há que reflectir...
Com votos de um fim de semana para todos.
Juan Gelman

Filho de ucranianos de origem judia, o poeta argentino Juan Gelman nasceu em Buenos Aires, em 1930. Considerado hoje um dos principais escritores em língua castelhana, Gelman estreou em 1956 com o livro Violín e Otras Cuestiones, obra que deu início a uma seqüência regular de títulos.
A partir dos anos 70, a vida e a obra do poeta foram marcadas por acontecimentos trágicos, deflagrados pela ditadura militar argentina. Seu filho, Marcelo, e a esposa, Claudia, grávida, foram seqüestrados em 1976. Os dois entraram para a lista de desaparecidos. Somente em 1989 o poeta encontrou os restos mortais do filho. No ano 2000, localizou a neta, nascida no cárcere, já com 23 anos. A menina fora adotada pela família de um militar uruguaio. Os restos de Claudia não foram encontrados até hoje. Em 1976 ela foi levada para o Uruguai, num esquema resultante da colaboração entre ditaduras vizinhas. O poeta, agora com reforço da neta, ainda hoje move uma campanha mundial em busca dos restos mortais da nora.
Si Dios fuera mujer
Fernando Pessoa - poesia
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.
O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.
Trêmulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?
quinta-feira, 19 de Junho de 2008
quarta-feira, 18 de Junho de 2008
A Concha

tela de Gustav Klimt
A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.
Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.
E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.
A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.
Vitorino Nemésio
Maria Bethânia - Reconvexo
Eu sou o vento que lança a areia do Saara
Sobre os automóveis de Roma
Eu sou a sereia que dança
A destemida Iara
Água e folha da Amazônia
Eu sou a sombra da voz da matriarca da Roma Negra
Você não me pega
Você nem chega a me ver
Meu som te cega, careta, quem é você?
Que não sentiu o suingue de Henri Salvador
Que não seguiu o Olodum balançando o Pelô
E que não riu com a risada de Andy Warhol
Que não, que não e nem disse que não
Eu sou um preto norte-americano forte
Com um brinco de ouro na orelha
Eu sou a flor da primeira música
A mais velha
A mais nova espada e seu corte
Sou o cheiro dos livros desesperados
Sou Gitá Gogóia
Seu olho me olha mas não me pode alcançar
Não tenho escolha, careta, vou descartar
Quem não rezou a novena de Dona Canô
Quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor
Quem não amou a elegância sutil de Bobô
Quem não é Recôncavo e nem pode ser reconvexo
Parabéns para Maria Bethânia.
terça-feira, 17 de Junho de 2008
Dia Mundial
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Pocos lo saben, pero existe un Premio Nobel de ecología. Este año lo ha ganado Jesús León Santos, de 42 años, un campesino indígena que lleva realizando en los últimos 25 años un excepcional trabajo de reforestación en su región de Oaxaca, México.
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La lutte contre la désertification ne concerne pas que les Africains
Nous devons montrer que la lutte contre ce fléau ne concerne pas seulement les Africains, elle peut avoir des bénéfices pour l’ensemble du globe : assurer la sécurité alimentaire par exemple.
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ODE À POESIA
caminhando
contigo, Poesia.
A princípio
me emaranhavas os pés
e eu caía de bruços
sobre a terra escura
ou enterrava os olhos
na poça
para ver as estrelas.
Mais tarde te apertaste
a mim com os dois braços da amante
e subiste
pelo meu sangue
como uma trepadeira.
E logo
te transformaste em taça.
Maravilhoso
foi
ir derramando-te sem que te consumisses,
ir entregando tua água inesgotável,
ir vendo que uma gota
caia sobre um coração queimado
que de suas cinzas revivia.
Mas
ainda não me bastou.
Andei tanto contigo
que te perdi o respeito.
Deixei de ver-te como
náiade vaporosa,
te pus a trabalhar de lavadeira,
a vender pão nas padarias,
a tecer com as simples tecedoras,
a malhar ferros na metalurgia.
E seguiste comigo
andando pelo mundo,
contudo já não eras
a florida
estátua de minha infância.
Falavas
agora
com voz de ferro.
Tuas mãos
foram duras como pedras.
Teu coração
foi um abundante
manancial de sinos,
produziste pão a mãos cheias,
me ajudaste
a não cair de bruços,
me deste companhia,
não uma mulher,
não um homem,
mas milhares, milhões.
Juntos, Poesia,
fomos
ao combate, à greve,
ao desfile, aos portos,
à mina
e me ri quando saíste
com a fronte tisnada de carvão
ou coroada de serragem cheirosa
das serrarias.
Já não dormíamos nos caminhos.
Esperavam-nos grupos
de operários com camisas
recém-lavadas e bandeiras rubras.
E tu, Poesia,
antes tão desventuradamente tímida,
foste
na frente
e todos
se acostumaram ao teu traje
de estrela cotidiana,
porque mesmo se algum relâmpago delatou tua família,
cumpriste tua tarefa,
teu passo entre os passos dos homens.
Eu te pedi que fosses
utilitária e útil,
como metal ou farinha,
disposta a ser arada,
ferramenta,
pão e vinho,
disposta, Poesia,
a lutar corpo-a-corpo
e cair ensangüentada.
E agora,
Poesia,
obrigado, esposa,
irmã ou mãe
ou noiva,
obrigado, onda marinha,
jasmim e bandeira,
motor de música,
longa pétala de ouro,
campana submarina,
celeiro
inextinguível,
obrigado
terra de cada um
de meus dias,
vapor celeste e sangue
de meus anos,
porque me acompanhaste
desde a mais diáfana altura
até a simples mesa
dos pobres,
porque puseste em minha alma
sabor ferruginoso
e fogo frio,
porque me levantaste
até a altura insigne
dos homens comuns,
Poesia,
porque contigo,
enquanto me fui gastando,
tu continuaste
desabrochando tua frescura firme,
teu ímpeto cristalino,
como se o tempo
que pouco a pouco me converte em terra
fosse deixar correndo eternamente
as águas de meu canto.
Pablo Neruda
segunda-feira, 16 de Junho de 2008
La beauté d'Ava Gardner - Alain Souchon
Todos nos lembramos com certeza de Ava Gardner, hoje fica aqui, para todos os saudosistas, homenageada pelo Alain Souchon.Com votos de uma boa semana de trabalho para todos vocês.
domingo, 15 de Junho de 2008
Edvard Grieg - Peer Gynt - Morning Mood
(Edvard Grieg 15 de Junho 1843/4 de Setembro de 1907 - Bergen Noruega)
Privatizado
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence."
...
Tempos Sombrios
Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência a loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes,
pois implica em silenciar
sobre tantos horrores.
Se Fôssemos Infinitos
Fôssemos infinitos
Tudo mudaria
Como somos finitos
Muito permanece.
As margens
Do rio que tudo arrasta se
diz que é violento
Mas ninguém diz violentas as
margens que o comprimem
QUEM NÃO SABE DE AJUDA
Como pode a voz que vem das casas
Ser a da justiça
Se os pátios estão desabrigados?
Como pode não ser um embusteiro aquele que
Ensina os famintos outras coisas
Que não a maneira de abolir a fome?
Quem não dá o pão ao faminto
Quer a violência
Quem na canoa não tem
Lugar para os que se afogam
Não tem compaixão.
Quem não sabe de ajuda
Que cale.
Bertolt Brecht
sábado, 14 de Junho de 2008
Un Songe

Tela de René Magritte
Le laboureur m'a dit en songe: "Fais ton pain
Je ne te nourris plus: gratte la terre et sème."
Le tisserand m'a dit: "Fais tes habits toi-même."
Et le maçon m'a dit:" Prends la truelle en main."
Et seul, abandonné de tout le genre humain
Dont, je traînai partout l'implacable anathème,
Quand j'implorai du ciel une pitié suprême,
Je trouvais des lions debout sur mon chemin.
J'ouvris les yeux, doutant si l'aube était réelle;
De hardis compagnons sifflaient sur leurs échelles.
Les métiers bourdonnaient, les champs étaient semés.
Je connus mon bonheur, et qu'au monde où nous sommes
Nul ne peut se vanter de se passer des hommes,
Et depuis ce jour-là, je les ai tous aimés.
Sully Prudhomme
HINO

Esta manhã
há no ar a incrível fragrância
das rosas do Paraíso.
Nas margens do Eufrates
Adão descobre a frescura da água.
Uma chuva de ouro cai do céu;
é o amor de Zeus.
Salta do mar um peixe
e um homem de Arigento recordará
ter sido esse peixe.
Na caverna cujo nome será Altamira
uma mão sem cara traça a curva
de um lombo de bisonte.
A lenta mão de Virgílio acaricia
a seda que trouxeram
do reino do Imperador Amarelo
as caravanas e as naves.
O primeiro rouxinol canta na Hungria.
Jesus vê na moeda o perfil de César.
Pitágoras revela a seus gregos
que a forma do tempo é a do círculo.
Numa ilha do Oceano
os cães de prata perseguem os cervos
de outro.
Numa bigorna forjam a espada
que será fiel a Sigurd.
Whitman canta em Manhattan.
Homero nasce em sete cidades.
Uma donzela acaba de aprisionar
o unicórnio branco.
Todo o passado volta como uma onda
e essas antigas coisas recorrem
porque a mulher te beijou.
Jorge Luís Borges
“Aqui sob os epitáfios e as cruzes não há quase nada. Aqui não estarei eu. Estarão meu cabelo e minhas unhas, que não saberão que o resto morreu, e seguirão crescendo e serão pó”
(Jorge Luís Boin Wikipédia
HAIKU
Sonhos
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.
Sophia de Mello Breyner Andresen
sexta-feira, 13 de Junho de 2008
Dedicatória
Em dia de aniversário para JVT... o Aznavour sei que é dos preferidos... a música acho-lhe graça. Bjs Clorinda
Eugénio de Andrade
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.
Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.
(Fundão, 19 de Janeiro de 1923 - Porto, 13 de Junho 2005)
Dulce Pontes - O Infante
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce
Deus quis que a Terra fosse toda uma
Que o mar unisse, já não separasse
Sagrou-te e foste desvendando a espuma
E a orla branca foi
De ilha em continente
Clareou correndo até ao fim do mundo
E viu-se a terra inteira, de repente
Surgiu redonda do azul profundo
Quem te sagrou, criou-te português
Do mar e nós em ti nos deu sinal
Cumpriu-se o mar e o império se desfez
Senhor, falta cumprir-se Portugal
Fernando Pessoa
quinta-feira, 12 de Junho de 2008
Onde me levas, rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me leva?, que me custa tanto.
Não quero que conduzas ao silêncio
duma noite maior e mais completa.
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.
Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos.
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos, com espasmos.
Canção, vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca.
Há outra fase na vida transbordante:
que seja nessa face que me perca.
Eugénio de Andrade
quarta-feira, 11 de Junho de 2008
Para ser grande, sê inteiro
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive
Ricardo Reis
Aproveitar o tempo
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha...
O trabalho honesto e superior...
O trabalho à Virgílio, à Mílton...
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!
Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos - nem mais nem menos -
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)...
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos -
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.
Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um acto indefinido nem factício...
Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas maneiras da alma...
Elegância de persistir...
Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!
(Passageira que viajaras tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto a vida?)
Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.
Álvaro de Campos
Adiamento
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rme toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-à,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...
Álvaro de Campos
terça-feira, 10 de Junho de 2008
Tous les moulins de mon coeur - Michel Legrand
Comme une pierre que l'on jette
Dans l'eau vive d'un ruisseau
Et qui laisse derrière elle
Des milliers de ronds dans l'eau
Comme un manège de lune
Avec ses chevaux d'étoiles
Comme un anneau de Saturne
Un ballon de carnaval
Comme le chemin de ronde
Que font sans cesse les heures
Le voyage autour du monde
D'un tournesol dans sa fleur
Tu fais tourner de ton nom
Tous les moulins de mon coeur
Comme un écheveau de laine
Entre les mains d'un enfant
Ou les mots d'une rengaine
Pris dans les harpes du vent
Comme un tourbillon de neige
Comme un vol de goélands
Sur des forêts de Norvège
Sur des moutons d'océan
Comme le chemin de ronde
Que font sans cesse les heures
Le voyage autour du monde
D'un tournesol dans sa fleur
Tu fais tourner de ton nom
Tous les moulins de mon coeur
Ce jour-là près de la source
Dieu sait ce que tu m'as dit
Mais l'été finit sa course
L'oiseau tomba de son nid
Et voila que sur le sable
Nos pas s'effacent déjà
Et je suis seul à la table
Qui résonne sous mes doigts
Comme un tambourin qui pleure
Sous les gouttes de la pluie
Comme les chansons qui meurent
Aussitôt qu'on les oublie
Et les feuilles de l'automne
Rencontre des ciels moins bleus
Et ton absence leur donne
La couleur de tes cheveux
Une pierre que l'on jette
Dans l'eau vive d'un ruisseau
Et qui laisse derrière elle
Des milliers de ronds dans l'eau
Au vent des quatre saisons
Tu fais tourner de ton nom
Tous les moulins de mon coeur
Flying Elephants Presents Ashes and Snow: Part I e II
E é com a beleza destes vídeos do fotógrafo, cinegrafista, canadense Gregory Colbert, que vos desejo a todos um óptimo dia de Portugal e de Camões.
segunda-feira, 9 de Junho de 2008
Agostinho da Silva - Que todo o mundo seja "Portugal"
(entrevista por Isabel Barreno)
Papel Histórico de Portugal:
. Portugal "fez coisas que nenhum outro país fez"
. "talvez possa realizar missões que parecem hoje utópicas"
. "Portugal tem usado aquilo que é, para fazer a sua política externa"
* "Que todo o mundo seja «Portugal», isto é, que no mundo toda a gente se comporte como se têm comportado os portugueses"
(a lamentar a fraca qualidade do vídeo)
Agostinho da Silva é dos mais paradoxais pensadores portugueses do século XX. O tema mais candente da sua obra foi a cultura de língua portuguesa, num fraternal abraço ao Brasil e aos países lusófonos. Todavia, a questão das filosofias nacionais não é para si decisiva, parecendo-lhe antes uma questão académica: «Não sei se há filosofias nacionais, e não sei se os filósofos, exactamente porque reflectem sobre o geral, se não internacionalizam desde logo».
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Amélia Muge - Nevoeiro
Nem rei, nem lei
Nem paz, nem guerra
Define com perfil e sei
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer
Brilho sem luz e sem arder
Como o que o fogo fátuo encerra
Ninguém sabe que coisa quer
Ninguém conhece que alma tem
Nem o que é mal, nem o que é bem
Que ânsia distante perto chora
Tudo é incerto e derradeiro
Tudo é disperso, nada é inteiro
Ó, Portugal, hoje és nevoeiro
É hora
O AMOR A PORTUGAL
O dia há-de nascer
Rasgar a escuridão
Fazer o sonho amanhecer
Ao som da canção
E então..
O amor há-de vencer
E a alma libertar
Mil fogos ardem sem se ver
Na luz do nosso olhar
Na luz do nosso olhar..
Um dia há-de se ouvir
O cântico final
Porque afinal falta cumprir
O amor a Portugal
O amor a Portugal!..
Ennio Morricone/ Dulce Pontes, Carlos Vargas
De quantas graças tinha, a Natureza

tela de Sandro Botticelli daqui
De quantas graças tinha, a Natureza
Fez um belo e riquíssimo tesouro,
E com rubis e rosas, neve e ouro,
Formou sublime e angélica beleza.
Pôs na boca os rubis, e na pureza
Do belo rosto as rosas, por quem mouro;
No cabelo o valor do metal louro;
No peito a neve em que a alma tenho acesa.
Mas nos olhos mostrou quanto podia,
E fez deles um sol, onde se apura
A luz mais clara que a do claro dia.
Enfim, Senhora, em vossa compostura
Ela a apurar chegou quanto sabia
De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.
Luís de Camões
A Irresponsabilidade da Multidão
A multidão que se chama parlamento nunca se sente tão feliz como quando pode calar com gritos um orador e derrubar um ministro; a multidão que se chama comício agita-se e exalta-se, mal um grito a incita a bradar «Abaixo!» sob as janelas de um inimigo ou a reclamar a cabeça de um indivíduo odiado ou ainda a queimar qualquer símbolo do poder, quer se trate de um panfleto, quer de um palácio de justiça; a multidão reunida num teatro que dá pelo nome de público pode aplaudir uma peça nova, mas, quando estimulada, não hesita em condenar e precipitar à força de uivos e assobios quem supunha tê-lo conquistado e ser-lhe, pelo engenho, superior. No fundo, toda a multidão é um público, que não quer dispersar sem ter assistido a um espectáculo. No entanto, selvagem como é, prefere os espectáculos trágicos; sente o circo dos gladiadores ou o torneio, mais do que a fábula pastoral. Quando se animaliza, quer sangue - pelo menos, vê-lo. Estar entre muito incute a sensação de força, ou seja, da prepotência e, ao mesmo tempo, a certeza da irresponsabilidade e da absolvição.
Giovanni Papini, in 'Relatório Sobre os Homens'
Oportunidades são responsabilidades
Alfred Montapert, in 'A Suprema Filosofia do Homem'
retirado daqui
Carlos Drummond de Andrade
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
A Verdade
A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade,
E a sua segunda metade
Voltava igualmente com meios perfis
E os meios perfis não coincidiam verdade...
Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta,
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual
a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela
E carecia optar.
Cada um optou conforme
Seu capricho,
sua ilusão,
sua miopia.
domingo, 8 de Junho de 2008
Donovan - The Song Of Wandering Aengus
I wish out to the hazel wood
Because a fire was in my head
And I cut and peeled a hazel wand
And hooked a berry with a thread
And when white moths were on the wing
And moth-like stars were flickering out
I dropped a berry in a stream
And caught a little silver trout.
When I had laid it on the floor
I went to blow the fire aflame
But something rustled on the door
And someone called me by by name.
It had become a glimmering girl
With apple blossoms in her hair
Who called me by my name and ran
And faded through the brightening air.
Though I am old with wandering
Through hollow lands and hilly lands
I will find out where she has goner
And kiss her lips andc take her hands
And walk among long dappled grass
And pluck till time and times are done
The silver apples of the moon,
The golden apples of the sun
W.B.Yeats
Os amantes sem dinheiro
Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.
Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.
Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.
Eugénio de Andrade
Angelo Branduardi - il libro
Depois de uma cansativa viagem ao reino da minha infância, sabe bem ,ouvir este maravilhoso cantautor, aqui num vídeo muito bonito.
Angelo Branduardi
la pulce d'acqua
che l'ombra ti rubò
e tu ora sei malato
e la mosca d'autunno
che hai schiacciato
non ti perdonerà
Sull' acqua del ruscello
forse tu troppo ti sei chinato,
tu chiami la tua ombra ma
lei non ritornerà
è la pulce d'acqua
che l'ombra ti rubò
e tu ora sei malato
e la serpe verde
che hai schiacciato
non ti perdonerà
E allora devi a lungo cantare
per farti perdonare
e la pulce d'acqua che lo sa
l'ombra ti render
Um pouco de lirismo
sábado, 7 de Junho de 2008
Como tú _ Paco Ibañez
Así es mi vida, mi vida,
piedra,
como tú.
Como tú, piedra pequeña;
como tú, piedra ligera;
como tú.
Como tú, canto que ruedas,
como tú, por las veredas
como tú.
Como tú, guijarro humilde,
como tú, de las carreteras,
como tú.
Como tú, piedra pequeña,
como tú,
Como tú, guijarro humilde,
como tú.
Como tú, que en dias de tormenta,
como tú, te hundes en la tierra,
como tú.
Como tú, y luego centelleas,
como tú,
bajo los cascos,
bajo las ruedas,
como tú
Como tú, piedra pequeña,
como tú.
Como tú, guijarro humilde,
como tú.
Como tú, que no sirves para ser ni piedra,
como tú,
ni piedra de una lonja,
como tú,
ni piedra de un palacio,
ni piedra de una iglesia,
ni piedra de una audiencia... como tú.
como tú,
Como tú. piedra aventurera,
Como tú, que tal vez estás hecha,
como tú,
Como tú, sólo para una honda... como tú,
piedra pequeña,
como tú.
Como tú...
Zora sourit
Une rue, les gens passent
Les gens comme on les voit
Juste un flux, une masse
Sans visage, sans voix
Quel étrange aujourd'hui
Quelque chose, mais quoi ?
Désobéit
Une rue comme d'autres
Et le temps se suspend
Une tache, une faute
Et soudain tu comprends
Impudence inouïe
Insolite, indécent
Zora sourit
Zora sourit, aux trottoirs, aux voitures, aux passants
Au vacarme, aux murs, au mauvais temps
À son visage nu sous le vent
À ses jambes qui dansent en marchant
À tout ce qui nous semble évident
Elle avance et bénit chaque instant
Zora sourit
Des phrases sur les murs
Des regards de travers
Parfois quelques injures
Elle en a rien à faire
Elle distribue ses sourires
Elle en reçoit autant
Zora sourit, effrontément
Zora sourit, insolemment
Zora sourit pour elle, elle sourit d'être là
Mais elle sourit pour celles, celles qui sont là-bas
Pour ces femmes, ses soeurs qui ne savent plus sourire
Alors, des larmes plein le coeur, des larmes plein la vie
Zora sourit, Zora sourit, Zora sourit
musicais, mas esta letra é especial, e fica aqui como uma pequena homenagem a todas as mulheres que por diversos motivos não sabem ou não podem sorrir.
sexta-feira, 6 de Junho de 2008
Quatro amigas
Elas dividiam suas preocupações e segredos.
Elas cresceram num bairro judeu, numa cidade sem nome.
Uma delas era libanesa. Tinha uma casinha de bonecas.
Outra tinha a boneca; uma linda boneca de plástico, quase tão grande quanto ela.
Bicicleta, elas não tinham, mas sua amiga judia, sim.
Uma tinha lindos e encaracolados cabelos longos e dois grandes olhos castanhos;
Antepassados africanos, uns 200 anos atrás.
Elas não tinham muitos livros, mas a garota africana tinha alguns.
A vizinhança era tranquila.
Não havia muitos carros pelas ruas.
Naquele tempo poucos tinham carros.
Havia um jardim, onde elas se reuniam e brincavam, falavam e se escondiam.
Uma trazia a boneca, a outra a casa de bonecas.
As quatro brincavam horas e horas.
A africana trazia alguns livros. Nele viajavam para longe, bem longe...
Quando se cansavam, subiam na bicicleta.
Uma após outra, iam para cima e para baixo, pelas ruas.
Elas se divertiam tanto!
Em pleno bairro judeu, as amigas alemã, libanesa, africana e judia, brincavam horas a fio, sem qualquer discussão.
Elas cresceram juntas.
Mais tarde, a vida as separou por quatro diferentes cantos do mundo.
Uma foi para Israel, a outra para a Palestina.
Agora elas não podem mais se encontrar na grama verde do jardim, mas podem se olhar através de uma cerca, de um jardim irracional.
Minha linda amiga africana foi para a América. Acabei de saber, pelas notícias da noite passada, que ela morreu em Nova Iorque.
Quem construiu muros entre nós, sem pedir permissão?
Onde estão minhas amigas?
Talvez estejam todas nos jardins de Deus, onde não existem brigas ou cercas, onde não existem raças, apenas muitos rostos!
Rejane Spiegelberg
Entre coisas simples...
quinta-feira, 5 de Junho de 2008

Federico Garcia Lorca, nasceu em Fuentevaqueros (Granada) em 5 de junho de 1898 e morreu assassinado em Viznar (Granada), uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola, em 19 de agosto de 1936. Foi dotado de uma personalidade extraordinariamente voltada para a arte. Além de ser um grande poeta, teve também alguns pendores musicais, tendo feito, ainda, alguns desenhos. É Garcia Lorca, com certeza, o poeta espanhol mais conhecido universalmente, só perdendo para Cervantes no número de edições e traduções de suas obras.
ler mais aqui
La luna vino a la fragua
Con su polisón de nardos.
El niño la mira, mira.
El niño la está mirando.
En el aire conmovido
mueve la luna sus brazos
y enseña, lúbrica y pura,
sus senos de duro estaño.
-Huye luna, luna, luna.
Si vinieran los gitanos,
harían con tu corazón
collares y anillos blancos.
- Niño, déjame que baile.
Cuando vengan los gitanos,
te encontrarán sobre el yunque
con los ojillos cerrados.
-Huye luna, luna, luna,
que ya siento sus caballos.
-Niño, déjame, no pises
mi blancor almidonado.
el jinete se acercaba
tocando el tambor del llano.
Dentro de la fragua el niño
tiene los ojos cerrados.
Por el olivar venían,
bronce y sueño, los gitanos.
Las cabezas levantadas
y los ojos entornados.
Cómo canta la zumaya,
¡y, como canta en el árbol!
por el cielo va la luna
con un niño de la mano.
Dentro de la fragua lloran,
dando gritos, los gitanos.
El aire la vela, vela.
El aire la está velando.
(Romance de la luna, luna - in Romancero gitano)
"C" de Louis Aragon

Tela de Monet
J’ai traversé les ponts de Cé
C’est là que tout a commencé
Une chanson des temps passés
Parle d’un chevalier blessé
D’une rose sur la chaussée
Et d’un corsage délacé
Du château d’un duc insensé
Et des cygnes dans les fossés
De la prairie où vient danser
Une éternelle fiancée
Et j’ai bu comme un lait glacé
Le long lai des gloires faussées
La Loire emporte mes pensées
Avec les voitures versées
Et les armes désamorcées
Et les larmes mal effacées
Ô ma France ô ma délaissée
J’ai traversé les ponts de Cé
"C" de Louis ARAGON, in Les Yeux d'Elsa (1942)
Bela poesia do grande poeta, Louis Aragon, aqui ilustrada, por mim, com uma não menos romantica tela de Claude Monet
quarta-feira, 4 de Junho de 2008
La grande famille- René Magritte

tirada daqui
...
Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J'écris ton nom
...
Sur les champs sur l´horizon
sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J´ecris ton nom
...
Liberté de Paul Éluard
No bairro do amor
onde hã sempre lugar para mais alguém
o bairro do amor foi feito a lápis de cor
pra gente que sofreu por não ter ninguém
No bairro do amor o tempo morre devagar
num cachimbo a rodar de mão em mão
no bairro do amor hã quem pergunte a sorrir
será que ainda cá estamos no fim do Verão
Eh pá, deixa-me abrir contigo
desabafar contigo
falar-te da minha solidão
Ah, é bom sorrir um pouco
descontrair um pouco
eu sei que tu compreendes bem
No bairro do amor a vida corre sempre igual
de café em café, de bar em bar
no bairro do amor o sol parece maior
e hã ondas de ternura em cada olhar
O bairro do amor é uma zona marginal
onde não hã prisões nem hospitais
no bairro do amor cada um tem de tratar
das suas nódoas negras sentimentais
Eh pá, deixa-me abrir contigo
desabafar contigo
falar-te da minha solidão
Ah, é bom sorrir um pouco
descontrair um pouco
eu sei que tu compreendes bem
Jorge Palma
terça-feira, 3 de Junho de 2008
Horizonte
Ó mar anterior a nós, teus medosTinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul siderio
'Splendia sobre as naus da iniciação.
Linha severa da longínqua costa -
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe, a abstracta linha.
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distancia imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte-
Os beijos merecidos da Verdade.
Fernando Pessoa
segunda-feira, 2 de Junho de 2008
Edward William Elgar & Jacqueline du Pré
Completaria hoje 151 anos este compositor, nascido a 2 de Junho de 1857 em Broaddheath no Worcestershire,reconhecido internacionalmente como o maior compositor Inglês depois de Purcell, sec. XVII.Aqui interpretado por uma violoncelista de conto de fadas.
Riquezas
Era Inverno e a neve não parava de cair. O Bonzo, assim se chamava o monge budista, com um chapéu de bambú na cabeça e um bastão de peregrino na mão, arrastava lentamente os pés, sem enxergar casa alguma. Tentava adivinhar onde estava o carreiro por onde caminhava. De repente, avistou ao longe o tecto de uma casa. Aproximou-se e viu que tinha as janelas bem fechadas por causa do frio.- Gomen nasai? (posso entrar?) - perguntou o Bonzo.
A porta entreabriu-se e apareceu uma mulher que se inclinou em vénia profunda, modo típico de cumprimentar quem chega.
- Podeis alojar-me esta noite?
- Espere um momento! - respondeu a mulher.
Fechou a porta, para não entrar frio e daí a pouco a porta voltou a abrir-se:
- É impossível - respondeu-lhe Tomonari, o dono da casa.
- Somos muito pobres e não temos absolutamente nada que comer a não ser um restinho de comida. Esperamos que a neve deixe de cair. O Bonzo resignou-se e seguiu o seu caminho sobre o manto de neve, que caía cada vez mais intensamente. Bem sabia que o casal era verdadeiramente pobre. Tomonari e a mulher muitas vezes passavam fome. A sua única riqueza eram três pequenas árvores bonsais no quintal. Sem trabalho durante este Inverno rigoroso, passavam os dias a olhar para as árvores anãs que tratavam como se fossem filhos. Passados os primeiros momentos, a mulher de Tomonari não aguentou e disse ao marido:
- Não me sinto bem. Mandámos embora o pobre Bonzo de mãos vazias.
- E que queres que eu te faça, se não temos nada para lhe dar? - interrompeu Tomonari. Mas, perante o olhar triste da mulher, não resistiu. Vestiu o casaco e saiu de casa. Não precisou de andar mais de 20 metros para encontrar o Bonzo caído em cima da neve, completamente roxo de tão gelado. Agarrou-o pela cintura e arrastou-o, com o pôde, até casa. A mulher pegou no pratinho de farinha cozida que lhes restava e deu-a ao Bonzo. Depois de a comer, o Bonzo conseguiu apenas balbuciar umas palavras de agradecimento.
Como este não parava de tremer de frio, o casal apercebeu-se que ele não tardaria em morrer. Para grande espanto da mulher, Tomonari cortou os três bonsais, partiu-os em pedaços e fez uma pequena fogueira para aquecer o Bonzo. A fogueira durou pouco tempo, mas antes que ela se apagasse, e com grande surpresa dos três, lá fora começou a brilhar o sol e logo a neve se começou a der-reter. Chegara inesperadamente a Primavera. Os três levantaram-se e foram à porta admirar tão rápida e desejada mudança.
O Bonzo agradeceu ao casal tamanha generosidade, que lhe salvou a vida. Feliz como nunca antes estivera, Tomonari exclamou:
- Somos nós que te agradecemos. Não imaginas a nossa alegria em vermos que recuperaste a vida e as forças. Na nossa casa poderá falta comida, mas nunca mais faltará alegria.
domingo, 1 de Junho de 2008
A Boneca
Com que inda há pouco brincavam,
Por causa de uma boneca,
Duas meninas brigavam.
Dizia a primeira: "É minha!"
— "É minha!" a outra gritava;
E nenhuma se continha,
Nem a boneca largava.
Quem mais sofria (coitada!)
Era a boneca.
Já tinha Toda a roupa estraçalhada,
E amarrotada a carinha.
Tanto puxaram por ela,
Que a pobre rasgou-se ao meio,
Perdendo a estopa amarela
Que lhe formava o recheio.
E, ao fim de tanta fadiga,
Voltando à bola e à peteca,
Ambas, por causa da briga,
Ficaram sem a boneca . . .
Olavo Bilac
Para todas as Esmeraldas do mundo
Sonhos da Menina
ou na fronha?
Sonho risonho:
O vento sozinho no seu carrinho.
De que tamanho seria o rebanho?
A vizinha apanha a sombrinha de teia de aranha . . .
Na lua há um ninho de passarinho.
A lua com que a menina sonha é o linho do sonho ou a lua da fronha?
Cecília Meireles


