domingo, 31 de Agosto de 2008

Tília


Peregrino, senta debaixo da ramagem,
Descansa; eu prometo – sequer o sol selvagem
Aqui pode avançar. Porém os raios justos
Deverão as sombras aquietar nos arbustos.
Aqui sempre sopram brisas frescas do campo,
Rouxinóis e negras aves cantam seu canto.
Abelhas obreiras recolhem mel das flores
Perfumadas para brindar as mesas nobres.
E a todos os homens meu murmúrio sereno
Cobre facilmente de adocicado sono.
Maçãs não carrego, mas sou árvore farta
Das Hespérides no jardim, meu amo exorta.


Jan Kochanowski. Trad. Aleksandar Jovanovic
In Rosa do Mundo2001 Poemas para o Futuro

Mina e Chico Buarque: Valsinha

Flor da Amizade


FotoPixdaus

Certas imagens dispensam quaisquer palavras...elas são poesia.
Votos de um bom Domingo a todos.

sábado, 30 de Agosto de 2008

Poema do coração

Foto de Pixdaus

"Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãos,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos".

Mas o meu coração é como o dos compêndios
Tem duas válvulas ( a tricúspide e a mitral)
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue a circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.

Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados
e uma lâmina baça e agreste, que endurece
a luz nos olhos em bisel cortados.
Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?"

António Gedeão

sexta-feira, 29 de Agosto de 2008

Gribouille - Mathias



Ainda bem que as belas vozes são eternas...

O equilibrista

Foto da Net

Essencialmente equilíbrio:
nem máximo nem mínimo.

Caminho determinado
movimentos precisos sempre
medo controlado máscara
de serenidade difícil.

Atenção dirigida olhar reto
pés sobre o fio sobre a lâmina
ser numa só idéia nítida
equilíbrio. Equilíbrio.

Acaba a prova? Só quando
o trapézio oferece o vôo
e a queda possível desafia
a precisão do corpo todo.

Acaba a prova se a aventura
inda mais aguda se mostra
mortal intensa desumana
desequilíbrio essencialmente.


Orides Fontela


APOCALIPSES


Com a aurora a ressumar, este sinal: em minha janela, uma árvore nua.


Um grito esquartejou a aurora.

Ao homem que retomara o espelho, pareceu-lhe que uma nova noite o invadia.
Suplicava que lhe fosse poupada essa insustentável evidência.

Francis Ponge (Trad: Júlio Castañon Guimarães)

quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

Memórias II

Covelas
Foto de Clorinda

Memórias I

Covelas/ Trás-os -Montes
Foto de Clorinda
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Luz e sombra


Foto de Clorinda
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Uma Pedra


Lugar que nos foi espelho,
Das frutas curvadas dentro
De sua água, luz que salva,

E gravarei sobre a pedra
Lembrança de que brilhou
Um círculo, fogo ermo.
Acima é rápido o céu

Como ao voto a pedra é fechada.
Que buscávamos? Talvez
Nada, a paixão só é sonho.
Nada pedem suas mãos.

E de quem amou uma imagem,
Por mais que o olhar deseje,
Fica a voz sempre partida,
É a palavra toda cinzas.

Yves Bonnefoy trad.(Mário Laranjeira)

Foto de Clorinda

Hoje recordo através destas fotografias e destes poemas um pouco da minha infância...saudades de um tempo agora guardado nas ruínas destas casas, que naquele tempo tinham outra vida.

A desertificação alastra no interior, sinal dos novos tempos.















A MURTA










Foto da Net

Por vezes te sabia a terra, eu bebia
Em teus lábios a angústia das nascentes
Quando brota das pedras quentes, e o verão
Dominava alto a pedra airosa e quem bebia.

Por vezes te dizia de murta e queimávamos
árvore de teus gestos todos todo um dia.
Eram fogaréus breves de uma luz vestal,
Assim eu te inventava em teus cabelos claros.

Todo um nulo verão secara-nos os sonhos,
Tolhera a voz, inchara os corpos, quebrara os ferros.
Por vezes ia rodando o leito, barca livre
Que ganha lentamente o mais alto cio mar.

Yves Bonnefoy trad. (Mário Laranjeira)

quarta-feira, 27 de Agosto de 2008

L´Uomo solo - Pavese/ Ferré

ouvir aqui

Pensamento

A alegria e o sofrimento são inseparáveis como compassos diferentes da mesma música.


Hermann Hesse

Cesare Pavese




Cesare Pavese (Santo Stefano Belbo, 9 de setembro de 1908 — Turim, 27 de agosto de 1950) foi um escritor e poeta italiano.

"Cesare Pavese nasceu em Santo Stefano Belbo, nas Langhe (província de Cuneo) em 1908, tendo-se mudado ainda em criança para Turim, donde se ausentou sempre apenas durante pouco tempo: passou um ano na prisão em Barcaleone (Reggio Calabria), comprometido por amigos políticos; passou algum tempo em Roma em trabalho para o editor Einaudi, de quem foi um dos mais eficazes conselheiros editoriais; suicidou-se em Turim em 1950. A sua tese de licenciatura foi sobre Walt Whitman e já não era um desconhecido quando em 1936 publicou Lavorare stanca: tinha já publicado e continuaria a publicar estudos sobre literatura norte-americana clássica e contemporânea, reunidos num volume (La letteratura americana e altri saggi) publicado postumamente em 1951. Traduziu Daniel Defoe (Moll Flanders), Dickens, Melville (Moby Dick e Benito Cereno), Joyce (Dedalus), Sinclair Lewis, John dos Passos, Gertrude Stein."

in Wikipédia


"Mania da solidão"

Como um jantar frugal junto à clara janela.
Na sala já está escuro mas ainda se vê o céu.
Se saísse, as ruas tranquilas deixar-me-iam
ao fim de pouco tempo em pleno campo.
Como e observo o céu — quem sabe quantas mulheres
estão a comer a esta hora — o meu corpo está tranquilo;
o trabalho atordoa o meu corpo e também as mulheres.

Lá fora, depois do jantar, as estrelas virão tocar
a terra na ancha planura. As estrelas são vivas,
mas não valem estas cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sei que entre os tectos de ferrugem
brilha já alguma luz e que, por baixo, há ruídos.
Um grande golo e o meu corpo saboreia a vida
das árvores e dos rios e sente-se desprendido de tudo.
Basta um pouco de silêncio e as coisas imobilizam-se
no seu verdadeiro sítio, como o meu corpo imóvel.

Cada coisa está isolada ante os meus sentido,
que a aceita impassível: um cicio de silêncio.
Cada coisa na escuridão posso sabê-la,
como sei que o meu sangue circula nas veias.
A planura é água que escorre entre a erva,
um jantar de todas as coisas. Cada planta e cada pedra
vivem imóveis. Escuto os alimentos e eles alimentam-me as veias
com todas as coisas que vivem nesta planura.

A noite importa pouco. O rectângulo do céu
sussura-me todos os fragores e uma estrela miúda
debate-se no vazio, longe dos alimentos,
das casas, distinta. Não se basta a si mesma
e precisa de muitas companheiras. Aqui, no escuro, sozinho,
o meu corpo está tranquilo e sente-se soberano.

Cesare Pavese, Trabalhar Cansa, tradução de Carlos Leite, Cotovia, 1997, página 71

Maria João & Mário Laginha feat. Lenine - Flor

A Fisga






























Bartolomé Esteban Murillo

O Jovem Mendigo
Óleo sobre tela, 1645
134 x 100 cm
Museu do Louvre, Paris


Trago a fisga no bolso de trás
E na pasta o caderno dos deveres
Mestre-escola, eu sei lá se sou capaz
De escolher o melhor dos dois saberes

O meu pai diz que o Sol é que nos faz
Minha mãe manda-me ler a lição
Mestre-escola, eu sei lá se sou capaz
Faz-me falta ouvir outra opinião

Eu até nem sequer sou mau rapaz
Com maneiras até sou bem mandado
Mestre-escola diga lá se for capaz
P´ra que lado é que me viro. P´ra que lado?

Trago ...

João Monge
interpretação de Cabeças no ar

Escada sem corrimão





























Foto tirada da Net

É uma escada em caracol
E que não tem corrimão.
Vai a caminho do sol
Mas nunca passa do chão.


Os degraus, quanto mais altos,
Mais estragados estão,
Nem sustos nem sobressaltos
Servem sequer de lição.


Quem tem medo não a sobe,
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
O lastro do coração.


Sobe-se numa corrida,
Corre-se p'rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
A escada sem corrimão.

David Mourão Ferreira

interpretado por Camané

a Escada sem corrimão
















Foto tirada da Net

É uma escada em caracol
E que não tem corrimão.
Vai a caminho do sol
Mas nunca passa do chão.


Os degraus, quanto mais altos,
Mais estragados estão,
Nem sustos nem sobressaltos
Servem sequer de lição.


Quem tem medo não a sobe,
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
O lastro do coração.


Sobe-se numa corrida,
Corre-se p'rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
A escada sem corrimão.

David Mourão Ferreira

interpretado por Camané

terça-feira, 26 de Agosto de 2008

Danez Prigent & Lisa Gerrard {black hawk down}



Infelizmente a violência não é apenas doméstica e cada vez se alargam mais as suas fronteiras.

Trigésima segunda?...

Ler aqui





















Foto de Leo Kenney


Tu és divina e graciosa
Estátua majestosa
No amor!
Por Deus esculturada
E formada com ardor...

Da alma da mais linda flor
De mais ativo olôr
Que na vida é preferida
Pelo beija-flor...

Se Deus
Me fora tão clemente
Aqui neste ambiente
De luz, formada numa tela
Deslumbrante e bela...

Teu coração
Junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado
Sobre a rosa e a cruz
Do arfante peito teu...

Tu és a forma ideal
Estátua magistral
Oh! alma perenal
Do meu primeiro amor
Sublime amor...

Tu és de Deus
A soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração
Sepultas um amor...

O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes
Cheios de sabor
Em vozes tão dolentes
Como um sonho em flor...

És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim
Que tem de belo
Em todo resplendor
Da santa natureza...

Perdão!
Se ouso confessar-te
Eu hei de sempre amar-te
Oh! flor!
Meu peito não resiste
Oh! meu Deus
O quanto é triste
A incerteza de um amor
Que mais me faz penar
Em esperar
Em conduzir-te
Um dia ao pé do altar...

Jurar aos pés do Onipotente
Em preces comoventes
De dor, e receber a unção
Da tua gratidão...

Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
Hei de envolver-te
Até meu padecer
De todo fenecer...

Bonita poesia da autoria Pixinguinha e Otávio de SouZa, interpretada por Marisa Monte.

Porque a violência doméstica é uma covardia de canalhas, aqui deixo o meu repugno por tais actos.
Singela homenagem às sua vitimas, na sua maior parte mulheres, directamente, e crianças por consequência.

Foto de Pixdaus
...
Vento, ventania
Me leve para
As bordas do céu
Pois vou puxar
As barbas de Deus...
Vento, ventania
Me leve para
Os quatro cantos do mundo
Me leve prá qualquer lugar
Hum! Me deixe cavalgar
Nos seus desatinos
Nas revoadas
Redemoinhos...
Vento, ventania
Me leve sem destino
Quero mover
As pás dos moinhos
E abrandar o calor do sol
Quero emaranhar
O cabelo da menina
...
Autor desconhecido

Nos dia de tempestade, que os vai haver de certeza, olhe sorria...mantenha a calma.

Ao longo da muralha que habitamos




























Photo.Net - Aleksandra Baranowski


Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas,que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens,palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras,surdamente
(......)

E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.

Mario Cesariny
























Foto de Kaushik Chatterjee


Senhor: não peço mais que silêncio,
o silêncio das noites de planície como enovoadas águas,
o silêncio dos montes quando a tarde acabou e as
[pedras
se afiam na friagem que é azul-celeste,
o silêncio do sol encarquilhando as folhas,
e o vento na areia depois de ter passado,
o silêncio das ondas ao longe espumejando tranquilas,
o silêncio das mãos e o dos olhos,
e o das aves negras que pairam nas alturas
de um céu silencioso e límpido. Não peço
mais que silêncio. O silêncio das ideias que deslizam
no tecto escorregadio da memória silente.
E o silêncio dos sonhos coloridos, e o dos outros
a preto e branco imagens desejadas
que não pensei que desejava e esqueço
ao querer lembrá-las. E o silêncio
dos sexos que se possuem sem uma palavra.
E o do amor também, tão silencioso esse,
que não sei quem amo.
Não peço mais. Afasta
de mim o estrondo: não o das cidades,
ou dos homens, das águas, do que estala
na memória ou penumbra das salas desertas.
Afasta de mim o estrondo com que a vida
se acabará contigo, num rasgar de súbito
em que ficarei inerte e silencioso. O estrondo
em que não ouvirei mais nada. O estrondo
em que não mexerei um dedo. O estrondo
em que serei desfeito. O estrondo
em que de olhos abertos
alguém mos abrirá.
Senhor: não peço mais do que o silêncio do mundo,
o silêncio dos astros, o silêncio das coisas
que outros homens fizeram, e o das coisas
que eu próprio fiz.
E o teu silêncio
de senhor que foi. Não peço mais.
Não é nada o que peço. Dá-me
o silêncio. Dá-me o que não fui:
silêncio (porque calei tanto):
o que não sou (pois que calo tanto):
o que hei-de ser (já que falar não adianta):
Silêncio.

Senhor: não peço mais.


Jorge de Sena, Peregrinatio ad Loca Infecta

Não sei se existem Amores e vidas perfeitos , sei apenas , que os erros são importantes na vida. Se os soubermos ultrapassar podem contribuir para o nosso aperfeiçoamento humano...difícil mesmo é alisar as cicatrizes que eles nos causam .

" O homem que não comete erros geralmente não faz nada" in Citador - E.J. Phelps

segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

Amores Perfeitos...























Photo.net


Aqui tens: o meu coração é o livro que te quero ler quando formos velhos.
Agora sou uma sombra, sinto-me inquieto como um império.
Tu és a mulher que me libertou.
Vi-te a olhar para a lua e não hesitaste em amar-me com ela. Vi-te glorificando as anémonas colhidas nas rochas e amaste-me com elas.
Recebeste-me na tua intimidade, na areia lisa, entre os seixos e a margem, melhor do que se eu fora um convidado.
Tudo isto sucedeu na verdade do tempo, na verdade da carne.
Estavas com um menino e fizeste-me participar do seu perfume e das suas visões, sem me pedires sangue, sobre mesas de madeira, adornadas com comida e velas e os mil sacramentos que trazias na tua cesta.
Visitei o barro (tornei-me tão pequeno). Assustei-me um pouco ao nascer outra vez.
Desejava-te pela tua beleza, deste-me mais ainda do que aquilo que possuías, compartilhaste a tua formosura — compreendi-o esta noite, enquanto recordo os espelhos de que fugias, depois de lhes entregares tudo o que exigiam pela minha iniciação.
Agora sou uma sombra, suspiro pelas fronteiras das minhas deambulações e avanço com a energia da tua oração e avanço porque estás ajoelhada com um ramalhete de flores numa caverna de ossos dentro da minha cabeça, enquanto avanço para um amor que sonhaste para mim.

Bonito texto de Leonard Cohen intitulado "Isto é para ti"

roubado aqui

Si se callase el ruido (Ismael Serrano)

domingo, 24 de Agosto de 2008

Papá cuéntame otra vez



Papá cuéntame otra vez
ese cuento tan bonito
de gendarmes y fascistas
y estudiantes con flequillo

Y dulce guerrilla urbana
en pantalones de campana
y canciones de los Rolling
y niñas en minifalda

Papá cuéntame otra vez
todo lo que os divertísteis
estropeando la vejez
a oxidados dictadores

Y como cantaste al vent
y ocupasteis la Sorbona
en aquel mayo francés
en los días de vino y rosas

Papá cuéntame otra vez
esa historia tan bonita
de aquel guerrillero loco
que mataron en Bolivia

Y cuyo fusil ya nadie
se atrevió a tomar de nuevo
y como desde aquel día
todo parece más feo

Papá cuéntame otra vez
que tras tanta barricada
y tras tanto puño en alto
y tanta sangre derramada

Al final de la partida
no pudísteis hacer nada
y bajo los adoquines
no había arena de playa

Fue muy dura la derrota
todo lo que se soñaba
se pudrió en los rincones
se cubrió de telarañas

Y ya nadie canta al vent
ya no hay locos ya no hay parias
pero tiene que llover
aún sigue sucia la plaza

Queda lejos aquel mayo
queda lejos Saint Denis
que lejos queda Jean Paul Sartre
muy lejos aquel París

Sin embargo a veces pienso
que al final todo dio igual
las ostias siguen cayendo
sobre quien habla de más

Y siguen los mismos muertos
podridos de crueldad
Ahora mueren en Geórgia
los que morían en Vietnam
ahora mueren en Geórgia
los que morían en Vietnam
ahora mueren en Georgia
los que morían en Vietnam
Ismael Serrano

Os Portadores de sonhos












Foto da Net


Em todas as profecias
está prevista a destruição do mundo.
Todas as profecias dizem
que o homem criará sua própria destruição.
Porem os séculos e a vida que sempre se renovam
criariam também uma geração de amantes
e sonhadores;
homens e mulheres que não sonharam com a
destruição do mundo,
e sim com a construção do mundo das mariposas
e dos rouxinóis.
Desde pequeninos vinham marcados pelo amor.
Por trás de sua aparência cotidiana
guardavam a ternura e o sol da meia-noite.
Suas mães os encontraram chorando
por um pássaro morto
e mais tarde muitos foram encontrados
mortos como pássaros.
Estes seres coabitaram com mulheres translúcidas
e elas ficaram prenhes de mel e de filhos reverdecidos
por um inverno de carícias.
Foi assim que proliferaram no mundo os portadores
de sonhos,
atacados ferozmente pelos portadores de profecias
que falavam
de catástrofes.
Foram chamados iludidos, românticos, pensadores de
utopias,
disseram que suas palavras eram velhas
-e de fato eram porque a memória do paraíso
é antiga
no coração do homem -
os acumuladores de riquezas os temiam
e lançavam seus exércitos contra eles,
mas os portadores de sonhos faziam amor
todas as noites
e do seu ventre brotava a semente
que não somente portava sonhos mas que os
multiplicavam
e os fazia correr e falar.
E assim o mundo criou de novo a sua vida
da mesma forma que havia criado os que inventaram
a maneira
de apagar o sol.
Os portadores de sonhos sobreviveram aos
climas gélidos
e nos climas quentes pareciam brotar por
geração espontânea.
Quem sabe as palmeiras, os céus azuis, as chuvas
torrenciais
tiveram a ver com isso,
a verdade é que, como formiguinhas operárias
estes espécimes não deixavam de sonhar e construir
mundos formosos,
mundo de irmãos, de homens e mulheres que se
chamavam companheiros,
que se ensinavam a ler uns aos outros, consolavam-se
diante da morte,
se curavam e se cuidavam entre si,
se ajudavam
na arte de querer e na defesa da felicidade.
Eram felizes em seu mundo de açúcar e de vento
e de todas as partes vinha gente impregnar-se de alento
e de suas claras percepções
e de lá partiam os que os haviam
conhecido
portando sonhos,
sonhando com novas profecias
que falavam de tempos de mariposas e rouxinóis,
onde o mundo não haveria de findar na
hecatombe
mas onde os cientistas desenhariam
fontes, jardins, brinquedos surpreendentes
para fazer mais gostosa a felicidade do homem.
São perigosos - imprimiam as grandes rotativas
São perigosos - diziam os presidentes em seus discursos
São perigosos - murmuravam os artífices da guerra
Devem ser destruídos - imprimiam as grandes rotativas
Devem ser destruídos - diziam os presidentes em seus discursos
Devem ser destruídos - murmuravam os artífices da guerra.
Os portadores de sonhos conheciam seu poder
e por isso nada achavam de estranho
E sabiam também que a vida os havia criado
para proteger-se da morte que as profecias
anunciam
E por isso defendiam sua vida até a morte
E por isso cultivavam os jardins de sonhos
e os exportavam com grandes laços coloridos
e os profetas obscuros passavam noites
e dias inteiros
vigiando as passagens e os caminhos
procurando essas cargas perigosas
que nunca conseguiram encontrar
porque quem não tem olhos para sonhar
não enxerga os sonhos nem de dia, nem de noite.
E no mundo sucedeu um grande tráfico
de sonhos
que os traficantes da morte não podiam estancar;
em todas as partes há pacotes com laços de fita
que só esta nova raça de homens pode ver
e a semente destes sonhos não se pode detectar
porque está envolta em corações vermelhos
ou em amplos vestidos de maternidade
onde pezinhos sonhadores sapateiam nos ventres
que os carregam.
Dizem que a terra depois de os haver parido
desencadeou um céu de arco-íris
e soprou de fecundidade as raízes das árvores.
Nós sabemos que os vimos
Sabemos que a vida os criou
para proteger-se da morte que as profecias
anunciam.
Gioconda Belli
(Nicaragua)

Viajar

"Viajar? Para viajar basta existir.
Vou de dia para dia , como de estação para estação,
no comboio do meu corpo, ou do meu destino,
debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos,
sempre iguais e sempre diferentes,
como, afinal, as paisagens são.
Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo?
Só a fraqueza extrema da imaginação justifica
que se tenha que deslocar para sentir.
(...)
A vida é o que fazemos d'ela.
As viagens são os viajantes.
O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos."

Bernardo Soares
Livro do Desassossego

Faure Au bord de l'eau Veronique Gens

Girolamo Frescobaldi(1583 - 1643): Se Laura Spira



prazer confessado... ouvir música medieval.
Com votos de bom Domingo

Pensamento






























“A amizade não se busca,
não se sonha, não se deseja.
Pratica-se. É uma virtude”.

(Simone Weill)

Hossanas- Adélia Prado


Múrmurio



























Escultura de Pierre Daumas

Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor! - Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho- amor!


Cecília Meireles

sábado, 23 de Agosto de 2008

Colar de Carolina



Com seu colar de coral,

Carolina
corre por entre as colunas

da colina.

O colar de Carolina
colora o colo de cal,
torna corada a menina.

E o sol, vendo aquela cor
do colar de Carolina,
põe coroas de coral

nas colunas da colina.

Cecília Meireles


O amor




Deus — talvez esteja aqui, neste

pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos,
e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstractos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.

Existe: é o que sei quando
me lembro de ti. Uma relação pode durar
o que se quiser; será, no entanto, essa
impressão divina que faz a sua permanência? Ou
impõe-se devagar, como as coisas a que o
tempo nos habitua, sem se dar por isso, com
a pressão súbtil da vida?

Um deus não precisa do tempo para
existir: nós, sim. E o tempo corre por entre
estas ausências, mete-se no próprio
instante em que estamos juntos, foge
por entre as palavras que trocamos, eu
e tu, para que um e outro as levemos
connosco, e com elas o que somos,
a ânsia efémera dos corpos, o
mais fundo desejo das almas.

Aqui, um deus não vive sozinho,
quando o amor nos junta. Desce dos confins
da eternidade, abandona o mais remoto dos
infinitos, e senta-se aos pés da cama, como
um cão, ouvindo a música da noite. Um
deus só existe enquanto o dia não chega; por
isso adiamos a madrugada, para que não
nos abandone, como se um deus
não pudesse existir para lá do amor, ou o amor não se pudesse fazer sem um deus

(Nuno Júdice)

tirado daqui

Abraço




De repente deu vontade de um abraço.
Uma vontade de entrelaço, de proximidade...
De amizade, sei lá...
Talvez um aconchego que enfatize a vida
E amenize as dores...
Que fale sobre os amores
Que seja teimoso e ao mesmo tempo forte.
Deu vontade de poder rever saudade de um abraço
Um abraço que eternize o tempo
E preencha todo o espaço
Mas que faça lembrar do carinho, que surge devagarzinho
Da magia da união dos corpos, das auras...sei lá...
Lembrar do calor das mãos acariciando as costas
A dizer..." estou aqui."
Lembrar do trançar dos braços envolventes e seguros
Afirmando " estou com você "
Lembrar da transfusão de forças com a suavidade do momento ... sei lá...
Abraço... abraço... abraço... abraço... abraço... abraço
O que importa é a magia desse abraço!
A fusão de energia que harmoniza,
Integra tudo, e que se traduz no cosmo, no tempo e no espaço
Só sei que agora deu vontade desse abraço!!!!!!!!
Que afaste toda e qualquer angustia.
Que desperte a lágrima da alegria, e acalme o coração
Que traduza a amizade, o amor e a emoção
E para um abraço assim só pude pensar em voçê.......
Nessa sua energia, nessa sua sensibilidade
Que sabe entender o porquê...
Dessa vontade desse abraço.

Vinicius de Moraes

A um amigo que está de Parabéns...

sexta-feira, 22 de Agosto de 2008

"Elena Ledda" - Sa Lughe

Elena Ledda- Pesa Palchi No Torri Amargura

LXXXV - L'Horloge




Horloge! dieu sinistre, effrayant, impassible,
Dont le doigt nous menace et nous dit: "Souviens-toi!
Les vibrantes Douleurs dans ton coeur plein d'effroi
Se planteront bientôt comme dans une cible;

Le Plaisir vaporeux fuira vers l'horizon
Ainsi qu'une sylphide au fond de la coulisse;
Chaque instant te dévore un morceau du délice
A chaque homme accordé pour toute sa saison.

Trois mille six cents fois par heure, la Seconde
Chuchote: Souviens-toi! - Rapide, avec sa voix
D'insecte, Maintenant dit: Je suis Autrefois,
Et j'ai pompé ta vie avec ma trompe immonde!

Remember! Souviens-toi! prodigue! Esto memor!
(Mon gosier de métal parle toutes les langues.)
Les minutes, mortel folâtre, sont des gangues
Qu'il ne faut pas lâcher sans en extraire l'or!

Souviens-toi que le Temps est un joueur avide
Qui gagne sans tricher, à tout coup! c'est la loi.
Le jour décroît; la nuit augmente; souviens-toi!
Le gouffre a toujours soif; la clepsydre se vide.

Tantôt sonnera l'heure où le divin Hasard,
Où l'auguste Vertu, ton épouse encor vierge,
Où le Repentir même (oh! la dernière auberge!),
Où tout te dira Meurs, vieux lâche! il est trop tard!"

Charles Baudelaire

quinta-feira, 21 de Agosto de 2008

Le sommeil- Barbara



Du sommeil à mon sommeil,
Je guette tout un long jour
A la nuit qui me ramène enfin.
Enfin, le sommeil,
Le rêve et ses merveilles
Où de grands oiseaux blancs
Tournoient lentement.
Oh, regardez : il neige
De grands oiseaux de neige
Et de fatigue en fatigue,
Emportée, je navigue.
Oh, ne m'éveillez pas.
Des milliers d'oiseaux de lune
Se posent sur la dune.
Ne les effrayez pas.
Oh, laissez, laissez-moi dormir,
Mes oiseaux pour escorte.
Je vais, la fatigue me porte
Plus loin, plus loin
Vers le silence, silence, silence
De fleurs géantes,
Du sable d'ambre.
Il neige des plumes
D'oiseaux de lune.
Un désert blanc,
Un continent,
Et puis plus loin,
Si loin, la mer.

Du sommeil à mon sommeil.
Je guette tout un long jour
Le rêve.
Je rêve,
Je rêve...

O Haver


Pixdaus

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

Vinicius de Moraes

Aqui


A foto é de Pixdaus.

Aqui onde o exílio
Dói como agulhas fundas,
Esperarei por ti
Até que todas as coisas sejam mudas.
Até que uma pedra irrompa
E floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
E no silêncio desapareça.

(Eugénio de Andrade)

quinta-feira, 14 de Agosto de 2008

Radu Marian, Amarilli III

Radu Marian, Albinoni: Bella e l'Alba

Radu Marian, Albinoni: Zeffiretti Innamorati



E é ao som desta fantástica voz, que, espero vos agrade tanto quanto a mim, mas que não vos restem dúvidas... é sim a voz de um jovem, que mais parece a voz de uma donzela!.. que vos deixo por uns breves dias.


Vê essa concha? São tuas mãos.
Aperta os dedos com jeito,
mas que um pouco de água te escape.
Antes de tomar dá de beber
a um grão do pó do chão,
a um inseto
a uma folha seca,
a um galho de canela

a um mito de outros povos,
a um duende a um fio do vento,
a um ar do sol
a uma criança e a um velho.
E depois bebe.
O que sobrou é a tua parte
Bebe.


Carlos Rodrigues Brandão

quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

Pergunta-me

Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes
que me detive
junto das pontes enovoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu que reunias pedaços
do meu poema reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me
qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer

Mia Couto

A Lagartixa


A lagartixa ao sol ardente vive,
E fazendo verão o corpo espicha:
O clarão dos teus olhos me dá vida,
Tu és o sol e eu sol a lagartixa.
Amo-te como o vinho e como o sono,
Tu és meu copo e amoroso leito...
Mas teu néctar de amor jamais se esgota,
Travesseiro não há como teu peito.
Posso agora viver: para coroas
Não preciso no prado colher flores;
Engrinaldo melhor a minha fronte
Nas rosas mais gentis de teus amores.
Vale todo um harém a minha bela,
Em fazer-me ditoso ela capricha;
Vivo ao sol de seus olhos namorados,
Como ao sol de verão a lagartixa.

Álvares de Azevedo

O ESCRIBA ACOCORADO


Foto Pixdaus


Sentado na pedra de ti próprio,
não tens rosto, senão o que,
de anónimo, a ela afeiçoou
a mão que assim te quis. Do resto,
do que de individualidade, porventura,

em ti existiria, se encarregou
a persistente erosão dos dias. De vago,
neutro olhar sem órbitas, permaneces
hirto, fitando sempre mais além
da morna penumbra que te envolve

no halo intemporal que é, do tempo,
o nexo único. Nesse olhar
de não ver tudo se inscreve,
repensa e adivinha: teus limites
e, ainda, o que excederia tua humana

estatura. Sem contornos, em sombra
e sono te diluis no que, de ti,
nunca saberemos. Porém, límpida
e escorreita, até nós chega a laboriosa
escrita que no papiro ias lavrando.


Rui Knopfli

Le chêne et le roseau



Un petit roseau et un immense chêne cohabitent sur un îlot. De par sa stature imposante, le chêne empêche le roseau de profiter des rayons du soleil. Quand soudain, une tempête éclate...

terça-feira, 12 de Agosto de 2008

POUR FAIRE LE PORTAIT D'UN OISEAU



Peindre d’abord une cage
avec une porte ouverte
pendre ensuite
quelque chose de joli
quelque chose de simple
quelque chose de beau
quelque chose d’utile
pour l’oiseau
placer ensuite la toile contre un arbre
dans un jardin
dans un bois
ou dans une forêt
se cacher derrière l’arbre
sans rien dire
sans bouger...
Parfois l’oiseau arrive vite
mais il peut aussi bien mettre de longues années
avant de se décider
Ne pás le décourager
attendre
attendre s’il le faut pendant des années
n’ayant aucun rapport
avec la réussite du tableau
Quand l’oiseau arrive
s’il arrive
observer le plus profond silence
attrendre que l’oiseau entre dans la cage
et quand il est entré
fermer doucement la porte avec le pinceau
puis
effacer un a un tous les barreaux
en ayant soin de ne toucher aucune des plumes
de l’oiseau
Faire ensuite le portrait de l’arbre
en choisissant la plus belle de ses branches
pour l’oiseau
peindre aussi
le vert feuillage et la fraîcheur du vent
la poussière du soleil
et le bruit des bêttes de l’herbe dans la chaleur de l’été
et puis attendre que l’oiseau se decide à chanter
Si l’oiseau ne chate pas
c’est mauvais signe
signe que le tableau est mauvais
mais s’il chante c’est bon signe
signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout doucement
une des plumes de l’oiseau
et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau

Jacques Prevert


Não sei... se a vida é curta ou longa demais para nós.
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.

E isso não é coisa de outromundo:
é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa
demais mas que seja intensa, verdadeira e pura...
Enquanto durar

(Cora Coralina)

segunda-feira, 11 de Agosto de 2008

Prece


Foto de Pixdaus

Desejo

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga “Isso é meu”,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar “.

Victor Hugo

Chanson d'automne/..Léo Ferré



Canção de Outono em dia de Verão cinzento, mas agradável... Bonito poema de Paul Verlaine.
Com votos de uma excelente semana de férias para o caso de... ou de trabalho como é o meu caso.

Mundo


Foto Pixdaus
la rosa que amo/¿cómo la cuido yo?
¿no le hago mal?/
¿no la ajo?
¿no le corto los pies?/

¿y este acabar?/¿este estar
como no estar?/¿y cómo irse
de vos/rosa?/
¿ayuntar el dolor a lo ya sido?/

¿no entristecerte la bondad/
que los más días se te quema?/
¿y nada?/¿y todo?/¿y ya jamás?/
¿y que no llores?/

Juan Gélman

domingo, 10 de Agosto de 2008

Bom Domingo

sábado, 9 de Agosto de 2008

Gratidão

Aprendi o silêncio com os faladores, a tolerância com os intolerantes, a bondade com os maldosos; e, por estranho que pareça, sou grato a esses professores.

Khalil Gibran

Com os bons quero praticar estas virtudes, porque é deles a verdadeira sabedoria.
Clorinda

Procure


Procure os seus caminhos,

mas não magoe ninguém nessa procura.

Arrependa-se, volte atrás, peça perdão

Não se acostume com o que não o faz feliz,

revolte-se quando julgar necessário.

Alague seu coração de esperanças,

mas não deixe que ele se afogue nelas.

Se achar que precisa voltar, volte!

Se perceber que precisa seguir, siga!

Se estiver tudo errado,

comece novamente.

Se estiver tudo certo, continue.

Se sentir saudades, mate-a.

Se perder um amor, não se perca!

Se o achar, segure-o!"


Ashes and Snow- Feather to Fire



Com votos de um bom fim-de-semana. Imagens de rara beleza e simbiose perfeita da autoria de Gregory Colbert.

sexta-feira, 8 de Agosto de 2008

O próximo Mozart...

Canción novísima de los gatos


Foto de pixdaus

Mefistófeles casero
está tumbado al sol.
Es un gato elegante con gesto de león,
bien educado y bueno,
si bien algo burlón.
Es muy músico; entiende
a Debussy, más no
le gusta Beethoven.
Mi gato paseó
de noche en el teclado,
¡Oh, que satisfacción
de su alma! Debussy
fue un gato filarmónico en su vida anterior.
Este genial francés comprendió la belleza
del acorde gatuno sobre el teclado. Son
acordes modernos de agua turbia de sombra
....
excerto do poema Canción novísima de los gatos
Federico García Lorca

La dame brune



O Duo perfeito.

quinta-feira, 7 de Agosto de 2008

E POR VEZES

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos


David Mourão Ferreira

quarta-feira, 6 de Agosto de 2008

Mª DEL MAR BONET & GEORGES MOUSTAKI

M.Mar Bonet+P.Cepero+L. Rosas - "Alenar"

La Luna


Luna de Saguaro By WDN - Pixdaus


La luna se puede tomar a cucharada

o como una cápsula cada dos horas.
Es buena como hipnótico y sedante
y también alivia
a los que se han intoxicado de filosofía
Un pedazo de luna en el bolsillo
es el mejor amuleto que la pata de conejo:
sirve para encontrar a quien se ama,
y para alejar a los médicos y las clínicas.
Se puede dar de postre a los niños
cuando no se han dormido,
y unas gotas de luna en los ojos de los ancianos
ayudan a bien morir


Pon una hoja tierna de la luna
debajo de tu almohada
y mirarás lo que quieras ver.
Lleva siempre un frasquito del aire de la luna
para cuando te ahogues,
y dale la llave de la luna
a los presos y a los desencantados.
Para los condenados a muerte
y para los condenados a vida
no hay mejor estimulante que la luna
en dosis precisas y controladas

Jaime de Sabines

rosas


Foto de Pixdaus

segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

Neko Case - Maybe Sparrow

Talvez

1305390.jpg picture by vassphoto
Foto da Net


Talvez eu venha a envelhecer rápido demais.
Mas lutarei para que cada dia Tenha valido a pena.
Talvez eu sofra inúmeras desilusões no decorrer de minha vida.
Mas farei que elas percam a importância diante dos gestos de amor que encontrei.

Talvez eu não tenha forças para realizar todos os meus ideais.
Mas jamais irei me considerar um derrotado.
Talvez em algum instante eu sofra uma terrível queda.
Mas não ficarei por muito tempo olhando para o chão.

Talvez um dia o sol deixe de brilhar.
Mas então irei me banhar na chuva. Talvez um dia eu sofra alguma injustiça.
Mas jamais irei assumir o papel de vítima. Talvez eu tenha que enfrentar alguns inimigos.
Mas terei humildade para aceitar as mãos que se estenderão em minha direcção.

Talvez numa dessas noites frias, eu derrame muitas lágrimas.
Mas não terei vergonha por esse gesto. Talvez eu seja enganado inúmeras vezes.
Mas não deixarei de acreditar que em algum lugar alguém merece a minha confiança.

Talvez com o tempo eu perceba que cometi grandes erros.
Mas não desistirei de continuar trilhando meu caminho.
Talvez com o decorrer dos anos eu perca grandes amizades.
Mas irei aprender que aqueles que realmente são meus verdadeiros amigos nunca estarão perdidos.

Talvez algumas pessoas queiram o meu mal.
Mas irei continuar plantando a semente da fraternidade por onde passar.
Talvez eu fique triste ao concluir que não consigo seguir o ritmo da música.
Mas então, farei que a música siga o compasso dos meus passos.
Talvez eu nunca consiga enxergar um arco-íris.
Mas aprenderei a desenhar um, nem que seja dentro do meu coração.

Talvez hoje eu me sinta fraco.
Mas amanhã irei recomeçar, nem que seja de uma maneira diferente.
Talvez eu não aprenda todas as lições necessárias.
Mas terei a consciência que os verdadeiros ensinamentos já estão gravados em minha alma.
Talvez eu me deprima por não ser capaz de saber a letra daquela música.
Mas ficarei feliz com as outras capacidades que possuo.

Talvez eu não tenha motivos para grandes comemorações.
Mas não deixarei de me alegrar com as pequenas conquistas.
Talvez a vontade de abandonar tudo torne-se a minha companheira.
Mas ao invés de fugir, irei correr atrás do que almejo.
Talvez eu não seja exatamente quem gostaria de ser.
Mas passarei a admirar quem sou.
Porque no final saberei que, mesmo com incontáveis dúvidas, eu sou capaz de construir Uma vida melhor.

E se ainda não me convenci disso, é porque como diz aquele ditado: “ainda não chegou o fim”.
Porque no final não haverá nenhum “talvez” e sim a certeza de que a minha vida valeu a pena
E eu fiz o melhor que podia.

Aristóteles.

domingo, 3 de Agosto de 2008

Léo Ferré - Elsa

Aux poètes


Je ne sais ce qui me possède
Et me pousse à dire à voix haute
Ni pour la pitié ni pour l'aide
Ni comme on avouerait ses fautes
Ce qui m'habite et qui m'obsède

Celui qui chante se torture
Quels cris en moi quel animal
Je tue ou quelle créature
Au nom du bien au nom du mal
Seuls le savent ceux qui se turent

Machado dort à Collioure
Trois pas suffirent hors d'Espagne
Que le ciel pour lui se fît lourd
Il s'assit dans cette campagne
Et ferma les yeux pour toujours

Au-dessus des eaux et des plaines
Au-dessus des toits des collines
Un plain-chant monte à gorge pleine
Est-ce vers l'étoile Hölderlin
Est-ce vers l'étoile Verlaine

Marlowe il te faut la taverne
Non pour Faust mais pour y mourir
Entre les tueurs qui te cernent
De leurs poignards et de leurs rires
A la lueur d'une lanterne

Etoiles poussières de flammes
En août qui tombez sur le sol
Tout le ciel cette nuit proclame
L'hécatombe des rossignols
Mais que sait l'univers du drame

La souffrance enfante les songes
Comme une ruche ses abeilles
L'homme crie où son fer le ronge
Et sa plaie engendre un soleil
Plus beau que les anciens mensonges

Je ne sais ce qui me possède
Et me pousse à dire à voix haute
Ni pour la pitié ni pour l'aide
Ni comme on avouerait ses fautes
Ce qui m'habite et qui m'obsède

Louis Aragon


Poema dedicado aos poetas:

sobrevivências

ver aqui

Por razões obvias a foto foi retirada do blog. Obrigada ao JRM pelo comentário e pela observação.

sábado, 2 de Agosto de 2008

Jose Afonso - Saudades de Coimbra

Traz Outro Amigo Também - José Afonso

Zeca Afonso - Aveiro, 2 de Agosto de 1929 - Setúbal 23 de Fevereiro de 1987







Desta canção que apeteço

Desta canção que apeteço
à espera do Maio ido
chega-me agora um trinado
do outro lado do rio

Quisera ser rio ou ave
cair no chão que estremeço
para cantar à vontade
esta canção que apeteço

Esta canção a meu gosto
vinda pela madrugada
sai da garganta da gente
aos magotes pela estrada.

Escrito na prisão de Caxias, 16 de Maio de 1973

Lola Flores, Sevillanas

Quase juizo final

Meu errante não fazer nada vive e se solta pela variedade da noite.
A noite é uma festa longa e solitária.
Em meu coração secreto eu me justifico e celebro:
Testemunhei o mundo; confessei a estranheza do mundo.
Cantei o eterno: a clara lua volvedora e as faces que o amor enseja.
Comemorei com versos a cidade que me cerca
e os arrebaldes que se apartam.
Disse assombro onde outros dizem apenas hábito.
Diante da canção dos tíbios, acendi minha voz em poentes,
Exaltei e cantei os antepassados de meu sangue e os antepassados de meus sonhos.
Fui e sou.
Travei com palavras firmes meu sentimento que pode ter
se dissipado em ternura.
A lembrança de uma antiga vileza volta a meu coração.
Como o cavalo morto que a maré inflinge à praia, volta a meu coração.
Ainda estão a meu lado, no entanto, as ruas e a lua.
A água continua sendo doce em minha boca e as estrofes não me negam sua graça.
Sinto o pavor da beleza; quem se atreverá a condenar-me
se esta grande lua de minha solidão me perdoa?

Jorge Luis Borges