segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

Carrego as estações comigo


Carrego as estações comigo
e tenho as mãos cansadas.
(No bolso esquerdo um riacho murmura.)
Ali, onde pequenas pedras se acumulam,
uma canção exala seu vapor,
depois se perde.

Jardins de primavera circulam no meu corpo,
um céu de ouro verte seu perfume
e um vento ignorado agita suas asas.
Pasto de segredos,
mescla de memória e desejo,
meu corpo caminha com a chuva
(carrego as estações comigo),
à procura do sonho de uma nuvem fria.

Tantas folhas trago nos braços
que um pássaro, solidário, se oferece
para carregar as estações comigo.
Do peito aberto os meus jardins se vão
e o pássaro me ajuda (memória
e desejo) a semear meu corpo.

Ali planto meus braços,
debaixo daquelas árvores meus olhos ficam,
os pés, roídos pela terra, penduro numa árvore
e o tronco multiplico em cem pedaços –
lá vai, junto com as pedras,
no bojo do riacho antigo.

E pois que carrego as estações comigo,
os lábios deixo além, no descampado,
e peço ao pássaro que pelos cabelos atire
o que sobrou de mim
àquele mar onde me espera a memória
(e o desejo) do tempo em que não soube
carregar as estações comigo.

Carlos Felipe Moisés

AO REVERSO DA NOITE


Loceiros degolados
desángranse de ouro no Mar

De par de nós
a Lúa
fai ronseles infecundos

Mentres sonea a mareta
vai folleando no libro das velas

Irredentos velamios exhaustos
resignados a pendurar da cruz

Estrelas inconscientes
mecanizan o obseso tic-tac

A auga toda dos oceanos
ensumeuse nunha bágoa

E o pano branco do novo día
enxugará os ollos do ceo.

Manoel- Antonio

Jacques Prévert

il dit non avec la tête
mais il dit oui avec le cœur
il dit oui à ce qu’il aime
il dit non au professeur
il est debout
on le questionne
et tous les problèmes sont posés
soudain le fou rire le prend
et il efface tout
les chiffres et les mots
les dates et les noms
les phrases et les pièges
et malgré les menaces du maître
sous les huées des enfants prodiges
avec des craies de toutes les couleurs
sur le tableau noir du malheur
il dessine le visage du bonheur.


Jacques Prévert, Paroles

domingo, 28 de Setembro de 2008

sábado, 27 de Setembro de 2008

Paul Newman - 27-09-08

Peter Severin Krøyer

Je vous souhaite...


Le seul fait de rêver est déjà très important,

Je vous souhaite des rêves à n’en plus finir,

Et l’envie furieuse d’en réaliser quelques- uns,

Je vous souhaite d’aimer ce qu’il faut aimer,

Je vous souhaite d’oublier ce qu’il faut oublier,

Je vous souhaite des chants d’oiseaux au réveil,

Je vous souhaite des rires d’enfants,

Je vous souhaite des silences,

Je vous souhaite de résister à l’enlisement,

À l’indifférence, aux vertus négatives de notre époque.

Je vous souhaite surtout d’être vous.

(Jacques Brel)

Flores

"Sol"o gato cá de casa

Nahui Ollin

Nahui Ollin (1a. parte)

(2a. parte)

(3a. parte)

sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

Sonhos cor de rosa

Man Ray

IRMANDADE


Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.

Octavio Paz

(Trad. Antônio Moura)


quinta-feira, 25 de Setembro de 2008

Ils sont tombés.



Ils sont tombés sans trop savoir pourquoi
Hommes, femmes et enfants qui ne voulaient que vivre
Avec des gestes lourds comme des hommes ivres
Mutilés, massacrés les yeux ouverts d'effroi
Ils sont tombés en invoquant leur Dieu
Au seuil de leur église ou le pas de leur porte
En troupeaux de désert titubant en cohorte
Terrassés par la soif, la faim, le fer, le feu

Nul n'éleva la voix dans un monde euphorique
Tandis que croupissait un peuple dans son sang
L' Europe découvrait le jazz et sa musique
Les plaintes de trompettes couvraient les cris d'enfants
Ils sont tombés pudiquement sans bruit
Par milliers, par millions, sans que le monde bouge
Devenant un instant minuscules fleurs rouges
Recouverts par un vent de sable et puis d'oubli

Ils sont tombés les yeux pleins de soleil
Comme un oiseau qu'en vol une balle fracasse
Pour mourir n'importe où et sans laisser de traces
Ignorés, oubliés dans leur dernier sommeil
Ils sont tombés en croyant ingénus
Que leurs enfants pourraient continuer leur enfance
Qu'un jour ils fouleraient des terres d'espérance
Dans des pays ouverts d'hommes aux mains tendues

Moi je suis de ce peuple qui dort sans sépulture
Qu'a choisi de mourir sans abdiquer sa foi
Qui n'a jamais baissé la tête sous l'injure
Qui survit malgré tout et qui ne se plaint pas
Ils sont tombés pour entrer dans la nuit
Éternelle des temps au bout de leur courage
La mort les a frappés sans demander leur âge
Puisqu'ils étaient fautifs d'être enfants d'Arménie

quarta-feira, 24 de Setembro de 2008

Via Pixdaus Bahri Budak

E agora ... Mademoiselle chante le blues ; ( Patricia Kass

Miles Davis, My Funny Valentine

Liberdade


  • "A Liberdade é a única coisa que não podemos ter, a menos que estejamos dispostos a partilhá-la com os outros."
- William Allen White

segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

Carpe Diem...

Foto de Karl Schuler

Marlene Dietrich- berceuse

LULLABY IN YIDDISH

Luar na Lubre - O son das augas

Com votos de uma boa semana para todos.

domingo, 21 de Setembro de 2008

Pensamento do dia...

“Na medida em que é possível dizer, de um modo geral, que tanto a ciência como o conhecimento começam em algures, então é igualmente válido o que se segue: o conhecimento não parte de percepções, de observações, nem da recolha de dados ou de factos, mas sim de problemas. Sem problemas não há saber, como não há problemas sem saber.”

Karl Popper (1902-1994)


colhido em Mnemosyne


Os rios atônitos

José Eduardo Agualusa

(Ouvindo "Kongo", por Miriam Makeba)

Há palavras a dormir sobre o seu largo
assombro
Por exemplo, se dizes Quanza ou dizes Congo
é como se houvesse pronunciado os próprios
rios
Ou seja, as águas
pesadas de lama, os peixes todos e os perigos
inumeráveis
O musgo das margens, o escuro
mistério em movimento.

Dizes Quanza ou dizes Congo e um rio corre
Lento
em tua boca.

Dizes Quanza
e o ar se preenche de perfumes perplexos.

E dizes Congo
e onde o dizes há grandes aves
e súbitos sons redondos e convexos.

E dizes Quanza, ou dizes Congo
e sempre que o dizes acorda em torno
um turbilhão de águas:
a vida, em seu inteiro e infinito assombro.

Daqui

Miriam Makeba- When I've Passed On



como eu gosto desta voz!...

sábado, 20 de Setembro de 2008

Caminhando...

foto de Charles Mifsud

Vermeer paintings in Girl With a Pearl Earring



Posso dizer-vos que o filme é uma verdadeira beleza, recheado de minuciosidades preciosas...Obsessão artística!

Cá para mim, há obsessão bem pior... chama-se "mexeriquice" e atinge a camada das pessoas ditas "normais". Vamos lá compreender os loucos!... A virtude claro está :-) está no meio, anda por aí...Já diz o ditado "não há bela sem se não".

Vermeer

Tela de Johannes Vermeer

Com votos de um bom fim-de -semana.

Le jeune homme et la mort



Vejam como a "morte" pode por vezes ser, tão, sedutora...

sexta-feira, 19 de Setembro de 2008

Y Pakistán también...

"Children from nothern Pakistan"

ler Aqui
palavras para quê???

Je vous apporte la nouvelle...



Je vous apporte la nouvelle
Tous les loups tous les agneaux
Plus jamais ne se querellent
Au bord du même ruisseau

Je vous apporte la nouvelle
Le lapins et les mulots
Sont amis avec les aigles
Et s'envolent sur leurs dos

Les savants les plus habiles
Réunis dans une tour
Ont déclaré maintenant qu'il
Est temps de soigner le mal d'amour

Plus de peur, plus de menace
De vaincus ou de vainqueurs
Les canons sont à la casse
On en fera des tracteurs
Les canons sont à la casse
On en fera des tracteurs

Je vous apporte la nouvelle
Tous les loups tous les agneaux
Plus jamais ne se querellent
Au bord du même ruisseau

Je vous apporte la nouvelle
les seigneurs et les banquiers
ont ouvert leur citadelle
à la vraie communauté

Un martien sur notre Terre
M'a dit je veux vivre ici
Satan n'est plus en enfer
Il paraît qu'il préfère le paradis

Les journaux sont pleins de choses
Merveilleuses à raconter
Les colombes se reposent
Elles l'avaient bien mérité
Les colombes se reposent
Elles l'avaient bien mérité

Je vous apporte la nouvelle
Tous les loups tous les agneaux
Plus jamais ne se querellent
Au bord du même ruisseau

Je vous apporte la nouvelle
Les princesse et puis les rois
Se marient et sont fidèls
On n'avait jamais vu ça

Et je me suis réveillé
En sursaut tout habillé
Et tous le monde à bien rit
A la table où je m'étais endormis

Voilà ce qu'on a rêvé
Bien sûr ça n'existe pas
Et pourtant nous voulons croire
Qu'un jour ça nous arrivera

Je vous apporte la nouvelle
Tous les loups tous les agneaux
Plus jamais ne se querellent
Au bord du même ruisseau

Enrico Macias et Il Était une Fois ver vídeo aqui

P.S - desculpem o sentimentalismo

Se eu quiser falar com Deus...


Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Sumptuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

Pedro Mariano/ Gilberto Gil

Mercedes Sosa e Milton Nascimento - Volver a los 17



Dedico a vocês, "Janelas" do meu cantinho... porque como os amigos fui eu que vos escolhi.

quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

Nem sempre o caminho é de espinhos...

La Belle de Cadix a des yeux de velours...

NAVEGA SOLA. Lídia Pujol



Uma voz de ouro...

LÁGRIMA - Lidia Pujol, Dulce Pontes y Mayte Martin

Antonin Artaud

Escritor, director de teatro e actor, Antonin Artaud nasceu em Marselha, em 1896, e morreu em Paris, em 1948. Sua obra é marcada por colocar em xeque conceitos sobre a loucura e a consciência. Artaud criou o conceito de "teatro da crueldade". Na sua concepção, essa estética se propunha a descondicionar o espectador e levá-lo ao estado pré-civilizado, trazendo à tona sentimentos inconscientes. Durante sua vida, sofreu várias enfermidades físicas e mentais. Desde os 24 anos, usava ópio para conseguir suportar as dores de cabeça que o incomodavam e foi internado várias vezes durante nove anos. A brutalidade do tratamento nos hospícios, que se constituía em eletrochoques, afetaram-no muito. Sua obra completa é composta por 25 livros. Entre eles, O Teatro e seu Duplo, de 1938, e Cartas de Rodez, de 1946.

ler mais sobre Artaud aqui

Antonim Artaud, um gênio, um louco... enfim uma força da natureza que através do sofrimento e arte, quis transmitir ao ser humano um bocadinho de dignidade. Quanto a mim devem ser-lhe perdoados os excessos de "charlatanismo". Ele foi sem dúvida, a personificação do "Grito" de Munch.

Van Gogh- O suicidio pela sociedade

"Van Gogh não morreu devido a uma condição delirante, e sim por haver chegado a ser corporalmente o campo de ação de um problema em cujo redor se debate, desde suas origens, o espírito iníquo desta humanidade, o predomínio da carne sobre o espírito, o do corpo sobre a carne, do espírito sobre um ou sobre outra. Onde está, neste delírio, o lugar do eu humano?

"Van Gogh buscou seu espaço durante toda sua vida, com energia e determinação excepcionais. E não se suicidou em um ataque de loucura, pela angústia de não chegar a encontrá-lo, ao contrário, acabara de encontrar-se, de descobrir que era quem realmente era, quando a consciência geral da sociedade, para castiga-lo por haver se apartado dela, o suicidou.

"Isto aconteceu como acontece habitualmente, como uma bacanal, uma missa, uma absolvição, ou qualquer outro rito de consagração, de possessão, de sucubação ou de incubação."

Antonin Artaud

Cet arbre...

Tela de Vincent Van Gogh


Cet arbre et son frémissement

forêt sombre d'appels,

de cris,

mange le cœur obscur de la nuit.

Vinaigre et lait, le ciel, la mer,

la masse épaisse du firmament,

tout conspire à ce tremblement,

qui gîte au cœur épais de l'ombre.

Un cœur qui crève, un astre dur

qui se dédouble et fuse au ciel,

le ciel limpide qui se fend à l'appel du soleil sonnant,

font le même bruit, font le même bruit,

que la nuit et l'arbre au centre du vent.


Antonin Artaud- in L'Ombilic des limbes

quarta-feira, 17 de Setembro de 2008

Ainda José Régio...


João Bensaúde outro dos pseudónimos usados por José Maria dos Reis Pereira.

Onomatopeia


Menino franzino,
Quase pequenino,
Pequenino, triste,
Neste mundo só...,

Menino, desiste
De que tenham dó!

Desiste, menino,
Que o mundo é cretino...
Deixa o teu violino,
Toca o sol-e-dó.

Cada teu suspiro
Cai ao chão no pó...
Canta o tiro-liro
Tiro-liro-ló.

Deixa o teu violino,
Que não te é destino.
Desiste, menino,
De que tenham dó!

Menino franzino,
Triste e pequenino,
Pequenino, triste,
Neste mundo só...,

Menino, desiste!
Toca o sol-e-dó.
Canta o tiro-liro, repipiro-piro,
Canta o repipiro, tiro-liro-ló.

José Régio

José Régio


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais…
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém…
P’ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe…

José Régio - nascido José Maria dos Reis Pereira (Vila do Conde, 17 de Setembro de 1901/ 22 de Dezembro de 1969)

Poema das coisas simples


As coisas belas,
as que deixam cicatrizes na memória dos homens,
por que motivos serão belas?
E belas, para quê?

Põe-se o Sol porque o seu movimento é relativo.
Derrama cores porque os meus olhos vêem.
Mas por que será belo o pôr do Sol?
E belo, para quê?

Se acaso as coisas não são coisas em si mesmas,
mas só são coisas quando coisas percebidas,
por que direi das coisas que são belas?
E belas para quê?

António Gedeão - In 6 poemas Edições João Sá da Costa

Para quem como eu, que apesar de aceitar e gostar de várias formas de beleza, se revê nas coisas simples.


Poème de Miguel Hernandez "Menos Tu Vientre"

terça-feira, 16 de Setembro de 2008

Letreiro


Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
De insatisfação -,
Diante de qualquer adoração,
Ajuízo.
Não me sei conformar,
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso

Miguel Torga - In Poesia Vol.III Planeta de Agostini

Mar Sonoro



Rumor das ondas, música salgada,
Eterna sinfonia
Da energia
Inquieta:
Que búzio te ressoa a nostalgia,
Além do meu ouvido de poeta?

Miguel Torga -In Poesia Vol.III Planeta de Agostini

Gramática


Foto daqui

1. Fonética

Datilo
grafo
meu espasmo rude
em teu peito
e os dedos cravam
entre a bilabial
e a sibilante
o Ó
inaudível.


2. Vogais

Adiar
odiar
ode e ar.
As vogais se espalham
no céu da boca
e o sopro adiado
imobiliza
a língua
em forma de U.


3. Morfologia

Mastigo
um naco de sombra
e um assombro
de sílabas mudas
escorre dos dentes
entre os escombros
da memória calcinada.


4. Etimologia

Saber de cor
a água
a cor da pele
cada anseio
que a língua
recolhe.
Saber de cor
o coração.


5. Pontuação

Fotograma
atrás de fotograma
teu rosto
é a prolongada pausa
impressa na retina
entre parênteses
do travesseiro.


6. Linguagem figurada

Tropel de trapos
lençol amarfanhado
a convulsão
de umas sílabas rebeldes
desarrumando a cama
& a folha em branco:
o peito de quem ama.


7. Conjugação

Eu me arquipélago
tu te maravilhas
ele se istma
nós nos montanhamos
vós vos espraiais
eles se eclipsam.

Carlos Felipe Moisés

Sugestão...

O filme presta homenagem a Simone de Beauvoir no 20º aniversário de sua morte.
Sinopse — Em 1924, uma jovem brilhante e reservada prepara sua agrégation de filosofia. Entretanto, sob sua aparência de moça bem-comportada, esconde-se um temperamento singular que apenas Jean-Paul Sartre, um jovem gênio tão feio quanto provocador será capaz de perceber. Em vez de um pedido de casamento, Sartre lhe propõe um pacto no qual a monogamia e a mentira não teriam lugar. Para a glória maior da literatura e do conhecimento da alma humana, eles deveriam multiplicar suas experiências individuais e contá-las um ao outro nos mínimos detalhes. Beauvoir aceita o desafio.

Confesso que ainda não vi este telefilme, baseado na história de vida destes dois grandes filósofos...
Não deixarei de fazê-lo logo que tenha oportunidade de comprar o vídeo, pois estes excertos são quanto a mim bastante tentadores... Pelo menos para quem gosta das personagens e suas obras, (como é o meu caso). Fica a sugestão.

The most beautiful scene from "Les Amants du Flore"

The Last rose of summer Andre Rieu

segunda-feira, 15 de Setembro de 2008

Meditação à beira de um poema

Podei a roseira no momento certo
e viajei muitos dias,
aprendendo de vez
que se deve esperar biblicamente
pela hora das coisas.
Quando abri a janela, vi-a,
como nunca a vira
constelada,
os botões,
Alguns já com rosa- pálido
espiando entre as sépalas,
jóias vivas em pencas.
Minha dor nas costas,
meu desaponto com os limites do tempo,
o grande esforço para que me entendam
pulverizam-se
diante do recorrente milagre.
maravilhosas faziam-se
as cíclicas perecíveis rosas.
Ninguém me demoverá
do que de repente soube
à margem dos edifícios da razão:
a misericórdia está intacta,
vagalhões de cobiça,
punhos fechados,
altissonantes iras,
nada impede ouro de corolas
e acreditai: perfumes.
Só porque é setembro

Adélia Prado

Foto de Steve Augle

Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde és Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa,completamente silencioso,
Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar.

Nana Mouskouri - Serenade de Schubert

domingo, 14 de Setembro de 2008

A Presença



Que jamais, em tempo
algum, o teu coração
acalente o ódio

Que o canto da maturidade
jamais asfixie
a tua criança interior

Que o teu sorriso seja
sempre verdadeiro

Que as pedras do teu
caminho sejam sempre
encaradas como lições de vida.

Que a música seja tua
companheira de momentos
secretos contigo mesmo.

Que os teus momentos de
amor contenham a magia
da tua alma eterna em cada
beijo.

Que os teus olhos sejam
dois sóis,
olhando a luz da vida em
cada amanhecer.

Que cada dia seja um novo
recomeço,onde tua alma
dance na luz.

Que em cada passo teu,
fiquem marcas luminosas de
tua passagem em cada
coração.

Que em cada amigo o teu
coração faça festa
e celebre o encanto da amizade
profunda que
liga as almas afins.

Que em teus momentos de
solidão e cansaço, esteja
sempre presente em teu
coração a
lembrança de que tudo
passa e se transforma,
quando a alma é grande e
generosa.

Que o teu coração voe
contente nas asas da
espiritualidade consciente,
para que tu percebas a
ternura invisível tocando o
centro do teu ser eterno.

Que um suave vento te
acompanhe, na terra ou
no espaço.
E por onde quer que a força,
invisível do amor leve o teu viver.

Que o teu coração sinta
A PRESENÇA secreta do
inexplicável!

Que os teus pensamentos
os teus amores, o teu viver
e a tua passagem pela vida
sejam sempre abençoados
por aquele amor que ama
sem nome.

Aquele amor que não se
explica, só se sente.

Que esse amor seja o teu
rumo secreto,
Viajando eternamente no
centro do teu ser.

Que esse amor transforme
os teus dramas em luz,
a tua tristeza em
celebração,
e os teus passos cansados
em alegres passos de dança
renovadora.

Que jamais, em tempo algum,
te esqueças da PRESENÇA
que está em ti e em todos os
seres.
Que o teu viver seja pleno
de PAZ e LUZ

traduão ,de autor desconhecido, da letra de Serenade de Schubert
Leise Flehen... cantada entre outros por Nana Mouskouri

Entardecer

Pensamento do dia

Antoine de Saint-Exupéry


Inténtalo encontrar - Mayte Martín

Fábrica do poema

Tela de Vladimir Kush

Sonho o poema de arquitetura ideal
Cuja própria nata de cimento
Encaixa palavra por palavra, tornei-me perito em extrair
Faíscas das britas e leite das pedras.
Acordo;
E o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
Acordo;
O prédio, pedra e cal, esvoaça
Como um leve papel solto à mercê do vento e evola-se,
Cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido
Acordo, e o poema-miragem se desfaz
Desconstruído como se nunca houvera sido.
Acordo! os olhos chumbados pelo mingau das almas
E os ouvidos moucos,
Assim é que saio dos sucessivos sonos:
Vão-se os anéis de fumo de ópio
E ficam-me os dedos estarrecidos.
Metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
Sumidos no sorvedouro.
Não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita
No topo fantasma da torre de vigia
Nem a simulação de se afundar no sono.
Nem dormir deveras.
Pois a questão-chave é:
Sob que máscara retornará o recalcado?

Adriana Calcanhoto

ver video aqui

sábado, 13 de Setembro de 2008

Você aprende...

Tela de Camille Corot

Um dia Você Aprende que, depois de algum tempo você descobre a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.

Amanhecer

Carlos Nuñez- Amanecer

Construção

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Chico Buarque

sexta-feira, 12 de Setembro de 2008

Amizades

Gato Feliz



Um sorriso!




quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

O primeiro homem





Era como uma árvore da terra nascida
Confundindo com o ardor da terra a sua vida,
E no vasto cantar das marés cheias
Continuava o bater das suas veias.

Criados à medida dos elementos
A alma e os sentimentos
Em si não eram tormentos
Mas graves, grandes, vagos,
Lagos
Reflectindo o mundo,
E o eco sem fundo
Da ascensão da terra nos espaços
Eram os impulsos do seu peito
Florindo num ritmo perfeito
Nos gestos dos seus braços.



Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I
Caminho

Emil Nolde -The Lake Lucerne

quarta-feira, 10 de Setembro de 2008

Diana y Acteón: Paloma Herrera-José Manuel Carreño

Haicais

foto de Thinh Nguyen

Folha amarela
no vaso, vê o mundo
Pela janela

SE EQUIVOCÓ LA PALOMA




Se equivocó la paloma,
se equivocaba.
Por ir al norte fue al sur,
creyó que el trigo era el agua.
Creyó que el mar era el cielo
que la noche la mañana.
Que las estrellas rocío,
que la calor la nevada.
Que tu falda era tu blusa,
que tu corazón su casa.
(Ella se durmió en la orilla,
tú en la cumbre de una rama.)

(Rafael Alberti, 1939)

Carmen Linares: Se equivocó la paloma (Nuestro Hammam)

segunda-feira, 8 de Setembro de 2008

Dame à la Licorne " à mon seul désir "

Dame à la Licorne daqui

Lições

Detalhe da tapeçaria " Dame à la Licorne "


Não aprendi a colher a flor
Sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.

Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.

Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.

Trémula a haste
me pede
o adiar da noite.

Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.

Não, não me aprenderei
nunca a decepar flores,

Quem sabe, um dia.
eu, em mim, colha um jardim?

Mia Couto - In idades, cidades, divindades

A leitura deste belo poema, sugeriu-me na sua análise, a belíssima obra, da Idade Média, (sec. XV) de arte Flamenga "Mille-Fleurs", Dame à la Licorne " à mon seul désir " . Uma série de seis belas tapeçarias, que inspiraram Tracy Chevalier para escrever o seu livro, (que vos recomendo porque já li, e gostei muito) A Dama e o Unicórnio.
É talvez preciso ler o livro,(cheio de detalhes poéticos) para perceber a minha analogia, com o poema do Mia.

O presente que hoje me ofereci.

domingo, 7 de Setembro de 2008

Flores

Jacques Brel Ces Gens La 1966 (English Subtitles)

Les vieux

Foto de Rick Lundh

Les vieux ne parlent plus ou alors seulement parfois du bout des yeux
Même riches ils sont pauvres, ils n'ont plus d'illusions et n'ont qu'un cœur pour deux
Chez eux ça sent le thym, le propre, la lavande et le verbe d'antan
Que l'on vive à Paris on vit tous en province quand on vit trop longtemps
Est-ce d'avoir trop ri que leur voix se lézarde quand ils parlent d'hier
Et d'avoir trop pleuré que des larmes encore leur perlent aux paupières ?
Et s'ils tremblent un peu est-ce de voir vieillir la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, qui dit : je vous attends ?

Les vieux ne rêvent plus, leurs livres s'ensommeillent, leurs pianos sont fermés
Le petit chat est mort, le muscat du dimanche ne les fait plus chanter
Les vieux ne bougent plus, leurs gestes ont trop de rides, leur monde est trop petit
Du lit à la fenêtre, puis du lit au fauteuil et puis du lit au lit
Et s'ils sortent encore bras dessus, bras dessous, tout habillés de raide
C'est pour suivre au soleil l'enterrement d'un plus vieux, l'enterrement d'une plus laide
Et le temps d'un sanglot, oublier toute une heure la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, et puis qui les attend

Les vieux ne meurent pas, ils s'endorment un jour et dorment trop longtemps
Ils se tiennent la main, ils ont peur de se perdre et se perdent pourtant
Et l'autre reste là, le meilleur ou le pire, le doux ou le sévère
Cela n'importe pas, celui des deux qui reste se retrouve en enfer
Vous le verrez peut-être, vous la verrez parfois en pluie et en chagrin
Traverser le présent en s'excusant déjà de n'être pas plus loin
Et fuir devant vous une dernière fois la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, qui leur dit : je t'attends
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non et puis qui nous attend.

Jacques Brel

Gilbert Bécaud - C'est en septembre (Olympia 1988)

O Fruto

Subia, algo subia, ali, do chão,
quieto, no caule calmo, algo subia,
até que se fez flama em floração

clara e calou sua harmonia.

Floresceu, sem cessar, todo um verão
na árvore obstinada, noite e dia,
e se soube futura doação
diante do espaço que o acolhia.

E quando, enfim, se arredondou, oval,
na plenitude de sua alegria,
dentro da mesma casca que o encobria
volveu ao centro original.
Rainer Maria Rilke (trad. Augusto de Campos)

A terra


Também eu quero abrir-te e semear
Um grão de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a germinar
A semente dos versos que granjeio.

Na seara madura de amanhã
Sem fronteiras nem dono,
Há de existir a praga da milhã,
A volúpia do sono
Da papoula vermelha e temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.

Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força ressuscite!

Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
É um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.

Terra, minha aliada
Na criação!
Seja fecunda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente também de inspiração!

E por isso te rasgo de magia
E te lanço nos braços a colheita
Que hás de parir depois...
Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois.

Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se quer
Dentro dum corpo nu, moreno!

A charrua das leivas não concebe
Uma bolota que não dê carvalhos;
A minha, planta orvalhos...
Água que a manhã bebe
No pudor dos atalhos.

Terra, minha canção!
Ode de pólo a pólo erguida
Pela beleza que não sabe a pão
Mas ao gosto da vida!

Miguel Torga

Infância

Infância

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".

Guilherme de Almeida

sábado, 6 de Setembro de 2008

Ecos

Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos segui-los?
Depressa, disse a ave, procura-os, procura-os,
Na volta do caminho. Através do primeiro portão,
No nosso primeiro mundo, seguiremos
O chamariz do tordo? No nosso primeiro mundo.
Ali estavam eles, dignos, invisíveis,
Movendo-se sem pressão, sobre as folhas mortas,
No calor do outono, através do ar vibrante,
E a ave chamou, em resposta à
Música não ouvida dissimulada nos arbustos,
E o olhar oculto cruzou o espaço, pois as rosas
Tinham o ar de flores que são olhadas.
Ali estavam como nossos convidados, recebidos e recebendo.
Assim nos movemos com eles, em cerimonioso cortejo,
Ao longo da alameda deserta, no círculo de buxo,
Para espreitar o lago vazio.
Lago seco, cimento seco, contornos castanhos,
E o lago encheu-se com água feita de luz do sol,
E os lótus elevaram-se, devagar, devagar,
A superfície cintilava no coração da luz,
E eles estavam atrás de nós, reflectidos no lago.
Depois uma nuvem passou, e o lago ficou vazio.
Vai, disse a ave, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Escondendo-se excitadamente.. contendo o riso.
Vai, vai, vai, disse a ave: o género humano
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.

T.S. Elliot, Quatro Quartetos, Ática, 1983

Bette Davis

Bette Davis Eyes


Laisse moi me convaincre de l`éphémère qui enchantait hier ses yeux.

René Char

sexta-feira, 5 de Setembro de 2008

Eternamente



“Eu e o silêncio/ Ouvindo eternamente / O mar”

Walmir Ayala


Na romã



«Amo o repouso no coração do lume»
Eugénio de Andrade

NARCISO

...
Deus é o mais alto Narciso.
...
Antes de tudo ser esboçado
na mínima hipótese da vida,
Deus já se amava e contemplava
no sem princípio do tempo.
...
E à sua imagem e semelhança, como excelso
Narciso,talhou a criação.

Walmir Ayala


quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

Momento de ternura ... Robert Doisneau




"L'aile de ton soupir met um duvet aux feuilles. Le trait
de mon amour ferme ton fruit, le boit."

René Char

quarta-feira, 3 de Setembro de 2008

Fábricas del amor

Escultura de Rodin

I

Y construí tu rostro.
Con adivinaciones del amor, construía tu rostro
en los lejanos patios de la infancia.
Albañil con vergüenza,
yo me oculté del mundo para tallar tu imagen,
para darte la voz,
para poner dulzura en tu saliva.
Cuantas veces temblé
apenas si cubierto por la luz del verano
mientras te describía por mi sangre.
Pura mía
estás hecha de cuántas estaciones
y tu gracia desciende como cuántos crepúsculos.
Cuántas de mis jornadas inventaron tus manos.
Qué infinito de besos contra la soledad
hunde tus pasos en el polvo.
Yo te oficié, te recité por los caminos,
escribí todos tus nombres al fondo de mi sombra
te hice un sitio en mi lecho,
te amé, estela invisible, noche a noche.
Así fue que cantaron los silencios.
Años y años trabajé para hacerte
antes de oír un solo sonido de tu alma.

II

Alza tus brazos, ellos encierran a la noche,
desátala sobre mi sed,

tambor, tambor, mi fuego.
Que la noche nos cubra como una campana

que suene suavemente a cada golpe del amor.
Entiérrame la sombra, lávame con ceniza, cávame del dolor,

límpiame el aire:
yo quiero amarte libre.

Tú destruyes el mundo para que esto suceda,
tú comienzas el mundo para que esto suceda.

III

Me has amado las manos y caerán con el otoño.
Has amado mi voz y está arrasada.
Mi rostro ha reventado sobre ti como una piedra
impura.
Me has amado y amado
para que huya de mí, señor de sombras.

Me has destruido para que yo sea luz humana
cantando
como las criaturas de tu sangre.

IV

Que del recuerdo suba el olor de tu cuerpo y se
haga tu cuerpo.
Que la noche devuelva tu dulzura.
Que tus manos sean dadas por el temblor que dieron.
Que tus ojos regresen de todo lo mirado.

Paloma del amor
en vez
asciendes pura en libertad
giras y cantas como el cielo vas invadiendo el mundo.

V

Como un niño te canto bajo la noche oscura.

Cofre de los secretos, juegos hondos,
temblores del otoño como pañuelos rápidos,
te canto allí para que seas.

Señora del candor,
con boca limpia digo uno a uno tus nombres,
pongo mi rostro en la penumbra que de ellos
desciende,
hago un gran fuego con tus nombres bajo la
noche oscura.

En realidad quiero decir: me haces andar contra la muerte.

Juan Gelman
poema daqui





Foto de Spencer Jimmie Lee

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo Neruda

terça-feira, 2 de Setembro de 2008

Brahms Symphony#3: movement 3




A Johannes Brahms

Yo, que soy un intruso en los jardines
Que has prodigado a la plural memoria
Del porvenir, quise cantar la gloria
Que hacia el azul erigen tus violines.
He desistido ahora. Para honrarte
No basta esa miseria que la gente
Suele apodar con vacuidad el arte.
Quien te honrare ha de ser claro y valiente.
Soy un cobarde, Soy un triste, Nada
Podrá justificar esta osadía
De cantar la magnífica alegría
- Fuego y cristal- de tua alma enamorada.
Mi servidumbre es la palabra impura,
Vástago de um concepto y de un sonido;
Ni símbolo, ni espejo, ni gemido,
Tuyo es el río que hueye e perdura.

Jorge Luís Borges -de " La moneda de herro"

segunda-feira, 1 de Setembro de 2008

Nova cara

Por sentir uma certa dificuldade no alinhamento das postagens com o anterior modelo do Blog, ( do qual gostava bastante) resolvi fazer-lhe nova plástica, assim, a cara muda mas a alma é a mesma.

L´indifférence

pintura de Antonio Veronese daqui ,Veja a diferença da indiferença.

Les mauvais coups, les lâchetés
Quelle importance
Laisse-moi te dire
Laisse-moi te dire et te redire ce que tu sais
Ce qui détruit le monde c'est :
L'indifférence

Elle a rompu et corrompu
Même l'enfance
Un homme marche
Un homme marche, tombe, crève dans la rue
Eh bien personne ne l'a vu
L'indifférence

L'indifférence
Elle te tue à petits coups
L'indifférence
Tu es l'agneau, elle est le loup
L'indifférence
Un peu de haine, un peu d'amour
Mais quelque chose
L'indifférence
Chez toi tu n'es qu'un inconnu
L'indifférence
Tes enfants ne te parlent plus
L'indifférence
Tes vieux n'écoutent même plus
Quand tu leur causes

Vous vous aimez et vous avez
Un lit qui danse
Mais elle guette
Elle vous guette et joue au chat à la souris
Mon jour viendra qu'elle se dit
L'indifférence

L'indifférence
Elle te tue à petits coups
L'indifférence
Tu es l'agneau, elle est le loup
L'indifférence
Un peu de haine, un peu d'amour
Mais quelque chose

L'indifférence
Tu es cocu et tu t'en fous
L'indifférence
Elle fait ses petits dans la boue
L'indifférence
Y a plus de haine, y a plus d'amour
Y a plus grand-chose

L'indifférence
Avant qu'on en soit tous crevés
D'indifférence
Je voudrai la voir crucifier
L'indifférence
Qu'elle serait belle écartelée
L'indifférence

Letra de Maurice Vidalin/ música de Gilbert Bécaud

A Solidão em Perspectiva




É exactamente porque não há solidão que dizes que solidão. Imagina que eras o único homem no universo. Imagina que nascias de uma árvore, ou antes, porque eu quero pôr a hipótese de que não há árvores, nem astros, nem nada com que te confrontes: supõe que o universo é só o vazio e que tu nascias no meio desse vazio, sem nada para te confrontares. Como dizeres «eu estou sozinho»? Para pensares em «eu» e em «sozinho» tinhas de pensar em «tu» e em «companhia». Só há solidão «porque» vivemos com os outros...

Vergílio Ferreira, in 'Estrela Polar'