quinta-feira, 30 de Outubro de 2008

Imagine...John Lennon






Imagine there's no heaven,
It's easy if you try,
No hell below us,
Above us only sky,
Imagine all the people
living for today...

Imagine there's no countries,
It isnt hard to do,
Nothing to kill or die for,
No religion too,
Imagine all the people
living life in peace...

Imagine no possessions,
I wonder if you can,
No need for greed or hunger,
A brotherhood of men,
imagine all the people
Sharing all the world...

You may say I'm a dreamer,
but Im not the only one,
I hope some day you'll join us,
And the world will live as one




LLach




Muçulmanas...

Crianças apaixonadas pela terra
caminham pé descalço sobre a húmida greda
o destino delineado
na asa do pássaro migrante

Ao longe
o dia debruça-se para apagar a pobreza
e amontoar os figos secos da morte

*

O muro
vestido de cal
conta os dias retidos na pedra
envergonhado
esconde a miséria e a mão que se ergue

Tahar Ben Jelloun

(de Arzila / Estação de Espuma – Hiena Editora, 1987 – Colecção Águas Doidas, Trad. de Al Berto)


Todas as caixinhas de música


Todas as caixinhas de música
tocam belas canções.
Algumas de Bach, outras de
Chopin, e outras, canções de quem
nem sabemos o nome.
Queria abrir cada livro,
ler cada poema,
ver cada pedaço de mundo,
e ouvir as belas canções da bailarina
que nunca chora.

Angel Cabeza

Meu Epitáfio

Morta... serei árvore

serei tronco, serei fronde

e minhas raízes

enlaçadas às pedras de meu berço

são as cordas que brotam de uma lira

Enfeitei de folhas verdes

a pedra de meu túmulo

num simbolismo

de vida vegetal

Não morre aquele

que deixou na terra

a melodia de seu cântico

na música de seus versos.

Cora Coralina

Árias Pequenas. Para Bandolim

Antes que o mundo acabe, Túlio,

Deita-te e prova

Esse milagre do gosto

Que se fez na minha boca

Enquanto o mundo grita

Belicoso. E ao meu lado

Te fazes árabe, me faço israelita

E nos cobrimos de beijos

E de flores

Antes que o mundo se acabe

Antes que acabe em nós

Nosso desejo.

Hilda Hilst

Pré-História

foto Lilya Corneli

Mamãe vestida de rendas

Tocava piano no caos.

Uma noite abriu as asas

Cansada de tanto som,

Equilibrou-se no azul,

De tonta não mais olhou

Para mim, para ninguém!

Cai no álbum de retratos.

Murilo Mendes


quarta-feira, 29 de Outubro de 2008

Dices palabras...

dices palabras con árboles/
tienen hojas que cantan
y pájaros que juntan sol/

tu silencio
despierta
los gritos
del mundo/

Juan Gelman



Aquilo que vem ao mundo para nada perturbar não merece nem contemplações nem paciência.

René Char

Habillées chez Dior

Mais uma papoila...

José Peixoto+Filipa Pais-Dia da Tentação

Malmequer pequenino

Uma voz de ouro!!!

terça-feira, 28 de Outubro de 2008

Nilüfer Göle


No post anterior confundi, sem querer, devido à pressa, sempre inimiga da perfeição, estas duas lindas senhoras, ambas se chamam ,Nilüfer, e são duas e não apenas uma como eu o fazia crer. Fica aqui a retificação.

Duas grandes vozes da cultura turca e da defesa dos direitos das mulheres, sem dúvida!

Nilüfer - Çok Uzaklarda


Flores na janela....

Amedeo Modigliani

Sonho impossível...


Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer
O inimigo invencível
Negar
Quando a regra é vender
Sofrer
A tortura implacável
Romper
A incabível prisão
Voar
Num limite improvável
Tocar
O inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

Chico Buarque

MARIA JOÃO & MÁRIO LAGINHA

segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

Mulher ao cair da tarde

Ó Deus, não me castigue se falo
minha vida foi tão bonita!
Somos humanos,
nossos verbos têm tempos,
não são como o Vosso, eterno.

Adélia Prado

Lotus Flower - Performed by Shao Junting.

Flor de Lótus

Chinese Dance "Jasmine Flower"


Palavras? Sim. De ar

e perdidas no ar.

Deixa que eu me perca entre palavras,
deixa que eu seja o ar entre esses lábios,
um sopro erramundo sem contornos,
breve aroma que no ar se desvanece.
Também a luz em si mesma se perde.
Octavio Paz

domingo, 26 de Outubro de 2008

Mestre José Malhoa













José Vital Branco Malhoa (Caldas da Rainha, 28 de Abril de 1855Figueiró dos Vinhos, 26 de Outubro de 1933), pintor, desenhista e professor português, conhecido como José Malhoa.

Verdes anos - Mestre Carlos Paredes

Praia das Maçãs

Clara

Milho ao Sol

as promessas

sábado, 25 de Outubro de 2008

maurane - sur un prelude de bach

Auto retrato- Pablo Picasso

Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Martyr Patricio Clito Ruíz y Picasso (Málaga, 25 de Outubro, 1881Mougins, 8 de Abril, 1973) foi reconhecidamente um dos mestres da Arte do século XX. É considerado um dos artistas mais famosos e versáteis de todo o mundo, tendo criado milhares de trabalhos, não somente pinturas, mas também esculturas e cerâmica, usando, enfim, todos os tipos de materiais. Ele também é conhecido como sendo o co-fundador do Cubismo, junto com Georges Braque. Diz-se que levou toda a sua vida a saber pintar como uma criança. (A criança expressa-se pela necessidade que tem de se expressar e pelo prazer que isso lhe dá; tal como respira porque tem necessidade, sem que alguém se preocupe em fazer qualquer juízo sobre isso.

in Wikipédia
A ele devemos uma das mais célebres e emblemáticas telas "Guernica"...mas essa todos nós conhecemos.

La femme fleur

La femme aux bras croisés

Bom fim-de-semana

sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

Aquarela - Toquinho

quinta-feira, 23 de Outubro de 2008

The Art of Gustav Klimt & Edvard Munch



Veja mais aqui

quarta-feira, 22 de Outubro de 2008

fotos que me encantam!..

HUMANOS-MUDA DE VIDA

terça-feira, 21 de Outubro de 2008

Chanson pour l´Auvergnat

Elle est à toi cette chanson
Toi l'Auvergnat qui sans façon
M'as donné quatre bouts de bois
Quand dans ma vie il faisait froid
Toi qui m'as donné du feu quand
Les croquantes et les croquants
Tous les gens bien intentionnés
M'avaient fermé la porte au nez
Ce n'était rien qu'un feu de bois
Mais il m'avait chauffé le corps
Et dans mon âme il brûle encore
A la manièr' d'un feu de joie

Toi l'Auvergnat quand tu mourras
Quand le croqu'mort t'emportera
Qu'il te conduise à travers ciel
Au père éternel

Elle est à toi cette chanson
Toi l'hôtesse qui sans façon
M'as donné quatre bouts de pain
Quand dans ma vie il faisait faim
Toi qui m'ouvris ta huche quand
Les croquantes et les croquants
Tous les gens bien intentionnés
S'amusaient à me voir jeûner
Ce n'était rien qu'un peu de pain
Mais il m'avait chauffé le corps
Et dans mon âme il brûle encore
A la manièr' d'un grand festin

Toi l'hôtesse quand tu mourras
Quand le croqu'mort t'emportera
Qu'il te conduise à travers ciel
Au père éternel

Elle est à toi cette chanson
Toi l'étranger qui sans façon
D'un air malheureux m'as souri
Lorsque les gendarmes m'ont pris
Toi qui n'as pas applaudi quand
Les croquantes et les croquants
Tous les gens bien intentionnés
Riaient de me voir emmener
Ce n'était rien qu'un peu de miel
Mais il m'avait chauffé le corps
Et dans mon âme il brûle encore
A la manièr' d'un grand soleil

Toi l'étranger quand tu mourras
Quand le croqu'mort t'emportera
Qu'il te conduise à travers ciel
Au père éternel

Georges Brassens

Um dos mais belos poemas... podem ouvi-lo aqui

Que serais-je sans toi ?


J’étais celui qui sait seulement être contre
Celui qui sur le noir parie à tout moment
Que serais-je sans toi qui vins à ma rencontre.
Que cette heure arrêtée au cadran de la montre.
Que serais-je sans toi qu'un coeur au bois dormant.
Que serais-je sans toi que ce balbutiement.

Un bonhomme hagard qui ferme sa fenêtre
Un vieux cabot parlant dans anciennes tournées
L’escamoteur qu’on fait à son tour disparaître
Je vois parfois celui que je n’eus manqué d’être
Si tu n’étais venue changer ma destinée
Et n’avais relevé le cheval couronné

Je te dois tout je ne suis rien que ta poussière
Chaque mot de mon chant c’est de toi qu’il venait
Quand ton pied s’y posa je n’étais qu’une pierre
Ma gloire et ma grandeur seront d’être ton lierre
Le fidèle miroir où tu te reconnais
Je ne suis que ton ombre et a menue monnaie

J'ai tout appris de toi sur les choses humaines.
Et j'ai vu désormais le monde à ta façon.
J'ai tout appris de toi comme on boit aux fontaines
Comme on lit dans le ciel les étoiles lointaines.
Comme au passant qui chante, on reprend sa chanson.
J'ai tout appris de toi jusqu'au sens de frisson.

J'ai tout appris de toi pour ce qui me concerne.
Qu'il fait jour à midi, qu'un ciel peut être bleu
Que le bonheur n'est pas un quinquet de taverne.
Tu m'as pris par la main, dans cet enfer moderne
Où l'homme ne sait plus ce que c'est qu'être deux.
Tu m'as pris par la main comme un amant heureux.

Aragon, Le Roman inachevé,

segunda-feira, 20 de Outubro de 2008

A todos Vocês

O que nos salva é dar um passo e outro ainda

Antoine de Saint- Exupéry

Achei que podia parar, assim virando as costas, sem olhar para trás, fechando a porta. Mas este Carpe Diem já se tornou, para mim, a minha verdadeira casa, onde vocês, que me comentam ou não, têm o vosso espaço, a vossa própria janela. Abandoná-la e abandonar-vos é díficil! Por tudo isto, e não podendo deixar de homenagear a grande mulher que foi soeur Emmanuelle eis-me, de um modo mais moderado, (pois tenho imensos livros para ler) ao vosso convívio.

Ps: Sei que não é bonito dar o dito pelo não dito, não era de todo ,esta .a minha intenção, mas isto da Net não é tão virtual assim.

Uma mulher de excepção...

Soeur Emmanuelle uma mulher de excepção, um exemplo de vida para todos nós, trouxe- me a este espaço mais cedo que o previsto.
Afinal a despedida foi breve, mas não podia deixar de prestar aqui homenagem a esta grande, grande, Senhora.
A todos vocês boa semana.

sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

Carpe Diem em despedida...


Quem de manhã compreendeu os ensinamentos da sabedoria, à noite pode morrer contente.

Escolhi esta fotografia ,como poderia ter escolhido qualquer outra para ilustrar este belo pensamento de Confúcio. Este Blog vai agora continuar, no Word, em jeito de diário, porque como apaixonada que sou pela arte, "teria" mil e uma fotografias; quadros;poemas; músicas para partilhar, o que seria pretensioso da minha parte.
A todos os que me visitaram e, sobretudo comentaram, um grande bem hajam por me terem permitido este pequeno devaneio.

CARPE DIEM a todos

J´ai vécu

Quand je prendrai solitaire
L'aller simple sans retour
Que tout homme de la terre
Prend un jour
Pour aller voir Dieu le père
Et lui conter mes vertus
Je lui dirais sans manière
J'ai vécu

J'ai vécu la vie d'un être
Pétri de chair et de sang
J'ai vécu
Chaque seconde de mon temps
J'ai vécu pour tout connaître
De ce qui m'était offert
Sans souci d'aller au ciel ou en enfer
Pensant que je n'avais rien de mieux à faire

Ni plus ni moins optimiste
Que le reste des humains
J'ai mené la vie d'artiste
Pas de saint
Dés lors que s'éteint la piste
Que le spectacle s'est tu
Admettons qu'en égoïste
J'ai vécu

J'ai vécu la vie d'un être
Qui n'aspirait qu'au bonheur
J'ai vécu
Jusqu'à m'en déchirer le coeur
J'ai vécu, mon Dieu, peut-être
Sans penser à mon salut
Mais sur terre on m'avait affirmé que tu
Laissais venir à toi les brebis perdues

Si mes lettres de créances
Semblaient minces et sans effet
Si pour toucher sa clémence
Je devais
Justifier mon existence
En détail par le menu
Je dirais pour ma défense
J'ai vécu

J'ai vécu de feu dans l'âme
Pour les filles au coeur chaud
J'ai vécu
Le désir planté dans la peau
J'ai vécu au nom des femmes
Pour l'amour et ses envies
Croyant par moment toucher au paradis
J'ai vécu
Ma vie

Um texto maravilhoso, de Charles Aznavour, sobre a autenticidade.




Quem sabe um dia

Quem sabe um dia
Quem sabe um seremos
Quem sabe um viveremos
Quem sabe um morreremos!

Quem é que
Quem é macho
Quem é fêmea
Quem é humano, apenas!

Sabe amar
Sabe de mim e de si
Sabe de nós
Sabe ser um!

Um dia
Um mês
Um ano
Um(a) vida!

Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois
Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois

Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois

Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois

Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois

Um olhar...



Quem não compreende um olhar,
tampouco compreenderá uma longa explicação
Mário Quintana

Francis Cabrel - Madame n'aime pas

Francis Cabrel - L'ombre au tableau

Francis Cabrel - Le chêne liège

quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

Rosa - Jacques Brel

Tango


Se apagarmos a chama da paixão em nós acabaremos por nos tornarmos simples
atores, representando o nosso próprio papel, por isso vivamos apaixonados, pelo trabalho, pela natureza, ou, e também por alguém. Dando importância às coisas e às pessoas de quem gostamos.

Pensamento

Lança o saber e não terás tristeza
Lao Tse

quarta-feira, 15 de Outubro de 2008

Leonard Cohen - Suzanne

Pensamento

"difícil viver entre a falsa inteligência alheia. Antes ser absolutamente ininteligível perante uma ininteligência senhora de si do que ser devorado pelas partes que os outros escolhem, em puro abuso, para satisfação da própria inteligibilidade, deles, estrangeiros."

Herberto Helder

Aos poetas

Tela de V. Van Gogh

O POETA

Caçador de estrelas.
Chorou: seu alhar voltou
com tantas! Vem vê-las!

Guilherme de Almeida

A porta dos sonhos...

Numa noite em que o céu tinha um brilho mais forte
e em que o sono parecia disposto a não vir
fui estender-me na praia sozinho ao relento
e ali longe do tempo acabei por dormir

Acordei com o toque suave de um beijo
e uma cara sardenta encheu-me o olhar
ainda meio a sonhar perguntei-lhe quem era
ela riu-se e disse baixinho: estrela do mar

Sou a estrela do mar
só a ele obedeço, só ele me conhece
só ele sabe quem sou no princípio e no fim
só a ele sou fiel e é ele quem me protege
quando alguém quer à força
ser dono de mim

Não sei se era maior o desejo ou o espanto
mas sei que por instantes deixei de pensar
uma chama invisível incendiou-me o peito
qualquer coisa impossível fez-me acreditar

Em silêncio trocamos segredos e abraços
inscrevemos no espaço um novo alfabeto
já passaram mil anos sobre o nosso encontro
mas mil anos são pouco ou nada para a estrela do mar

Jorge Palma

Outono

terça-feira, 14 de Outubro de 2008

Uma flor é uma flor...

Aria - Gianna Nannini (Ohne Dich Video by Rammstein)

Gianna Nannini - Una luce.

Pensamento



Como é que um homem sem as virtudes que lhe são próprias pode cultivar a música ?


Confúcio

Referencias, datos personales

A mí me han hecho los hombres que andan bajo

el cielo del mundo
buscan el brillo de la madrugada
cuidan la vida como un fuego.

Me han enseñado a defender la luz que canta conmovida
me han traído una esperanza que no basta soñar
y por esa esperanza conozco a mis hermanos.

Entonces río contemplando mi apellido, mi rostro en
el espejo
yo sé que no me pertenecen
en ellos ustedes agitan un pañuelo
alargan una mano por la que no estoy solo.

En ustedes mi muerte termina de morir.
Años futuros que habremos preparado
conservarán mi dulce creencia en la ternura,
la asamblea del mundo será un niño reunido.

Juan Gelman

segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

Façam o favor de ser felizes

Guillaume Depardieu -7/04/71- 13/10/08

Guillaume Depardieu



A morte vem sempre cedo de mais

Uma flor

Natura Aeterna

A arte de ser feliz



Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crinças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como refelectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.
Cecília Meireles

domingo, 12 de Outubro de 2008

Vida

a vida é uma espiral de emoções, gerir e contornar os obstáculos que ela nos impõe não é simples, requer em nós paciência e alguma sapiência para continuar a escalada, pois nesta espiral não há retorno. Continuar é o caminho.
A todos uma óptima Segunda- feira

Pensamento


"A humildade é a única base sólida de todas as virtudes"

Ainda... Fragonard


Boa semana e óptimas leituras...

Le Verrou - Jean-Honoré Fragonard


Danse avec moi
Poupée de crinoline
Deviens ma proie
Libertine

Vierge aux abois
Va et viens
Défais-moi donc ce lit à baldaquin
Qu’en deux temps trois mouvements
L’on badine

Sonnez l’hallali
Sonnez ma mise à mort
Sonnez l’hallali
Sonnez ma mort

Sous mes verrous
Tu perdras ta vertu
Précieux atout
Ridicule

Sous mes yeux verts de galant
Délace-moi ce balconnet de soie
Que l’on morde enfin
Ton fruit défendu

Sonnez l’hallali
Sonnez ma mise à mort
Sonnez l’hallali
Sonnez ma mort

Tableau de Chasse chanté par Claire Diterzi

Claire Diterzi - Infidèle




Claire Diterzi - Tableau de Chasse







Claire Diterzi diz ter-se inspirado em Rodin e outros pintores para criar este seu album Tableau de Chasse, fica aqui um o vídeo para os apreciadores da Arte

O ÚNICO LIVRO



Vi que os negros Vedas,
o Evangelho e o Alcorão,
mais os livros dos mongóis,
em suas tábuas de seda
- como as mulheres calmucas todas as manhãs -
ergueram juntos uma pira,
de poeira da estepe
e odoroso estrume seco
e sobre ela pousaram.
Viúvas brancas veladas numa nuvem de fumo,
apressavam o advento
do livro único,
cujas páginas maiores que o mar
tremem como asas de borboletas safira,
e há um marcador de seda
no ponto onde o leitor parou os olhos.

Os grandes rios com sua torrente azul:
- o Volga, onde á noite celebram Rázin;
- o Nilo amarelo, onde imprecam ao Sol;
- o Yang-tze-kiang, onde há um denso lodo humano;
- e tu, Mississípi, onde os ianques
trajam calças de céu estrelado,
enrolando as pernas nas estrelas;
- e o Ganges, onde a gente escura são árvores de ciência;
- e o Danúbio, onde em branco homens brancos
de camisa branca pairam sobre a água;
- e o Zambeze, onde a gente é mais negra que uma bota;
- e o fogoso Obi, onde espancam o deus
e o voltam de olhos para a parede
quando comem iguarias gordurosas;
- e o Tâmisa, no seu tédio cinza.
O gênero humano é o leitor do livro.
Na capa, o timbre do artífice -
meu nome, em caracteres azuis.
Porém tu lês levianamente;
presta mais atenção:
és por demais aéreo, nada levas a sério.
Logo estarás lendo com fluência
- lições de uma lei divina -
estas cadeias de montanhas, estes mares imensos,
este livro único,
em cujas folhas salta a baleia
quando a águia dobrando a página no canto
desce sobre as ondas, mamas do mar,
e repousa no leito do falcão marinho.

1920

Velimir Khlébnikov

(Tradução de Haroldo de Campos)

Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos




Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.


Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.


Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.


E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.

Herberto Helder


sexta-feira, 10 de Outubro de 2008

ternura

Sei Um Ninho



Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar…

Miguel Torga

Edith Piaf L'Hymne à l'amour



Simplesmente imortal...

Há flores...

" Há flores a que chamamos amores perfeitos/ Colhi algumas que me cresciam nos sonhos"
Tahar Ben Jelloun -in Amores feiticeiros

Un lac
ou un cri
un ciel
mourant dans le visage
un amour
nu
dans les matins des miroirs

***

Tahar Ben Jelloun

homenagem

.

Vem com um dia de atraso esta homenagem

quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

Nobel Literatura -2008


Pintura rupestre - grutas Tchitundo-hulu- Moçâmedes


«Par le langage, l'homme s'est fait le plus solitaire des êtres du monde, puisqu'il s'est exclu du silence.»
[ Jean-Marie Gustave le Clézio ] - L'Inconnu sur la terre

quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

Serge Reggiani - Ma Liberté

Na formosura, prepara o banho, Lídia

Na formosura, prepara o banho, Lídia.
Os anos murcham e só no corpo sentes
Quente e fagueira a passagem da vida.

Não digas, céptica, que a carne é vã e passa
Desfeita em sombra, o negro rio. O Orco
Perséfone raptou rendido à graça.
Talvez no além precises do teu corpo.

Estima-o; e à beleza mais demora
Darão os fados na vida passageira.
Tépida a água, rescenda a musgo e a rosa.
De Paros seja o mármore da banheira.

Nua e rosada imerge na carícia
Emoliente da água perfumada,
E as folhas lassas dos membros espreguiça
Como uma humanizada flor aquática.

Não te esqueças, porém de no amavio
Da água verter um brando óleo de malvas
Que te aveluda as coxas e mais brilho
Te dá ao polimento das espáduas.

E saindo do banho como a deusa
Sai, das macias ondas, nacarada,
Ergue-te para o amor, estátua de seda
Toda coberta com pérolas de água.

Por fim veste a camisa picante;
Com pó de ouro empoa o teu cabelo.
E vai para a alcova onde o teu amante
Te espera radioso e fiel como um espelho.


Natália Correia, O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II
Tela de Bouguereau

Frutos


Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.

Eugénio de Andrade


terça-feira, 7 de Outubro de 2008

DE NOITE


Uma árvore nua
aponta o céu. Numa ponta
brota um fruto. A lua?

Guilherme de Almeida

El Cant dels Ocells

o som do sonho...

Ce petit chemin...



Pour aller à la Préfecture
Prends la route numéro trois
Tu suis la file des voitures
Et tu t'en vas tout droit, tout droit...
C'est un billard, c'est une piste,
Pas un arbre, pas une fleur,
Comme c'est beau, comme c'est triste,
Tu feras du cent trente à l'heure
Mais moi, ces routes goudronnées,
Toutes ces routes
Me dégoûtent,
Si vous m'aimez, venez, venez,
Venez chanter, venez flâner
Et nous prendrons un raccourci :
Le petit chemin que voici...

Ce petit chemin
Qui sent la noisette
Ce petit chemin
N'a ni queue ni tête
On le voit
Qui fait trois
Petits tours dans les bois
Puis il part
Au hasard
En flânant comme un lézard
C'est le rendez-vous
De tous les insectes
Les oiseaux pour nous,
Y donnent leur fêtes
Les lapins nous invitent
Souris-moi, courons vite
Ne crains rien,
Prends ma main
Dans ce petit chemin !
Les routes départementales
Où les vieux cantonniers sont rois
Ont l'air de ces horizontales
Qui m'ont toujours rempli d'effroi...
Et leurs poteaux télégraphiques
Font un ombrage insuffisant
Pour les idylles poétiques
Et pour les rêves reposants...
A bas les routes rabattues
Les tas de pierres,
La poussière
Et l'herbe jaune des talus...
Les cantonniers, il n'en faut plus !
Nous avons pris un raccourci :
Le petit chemin que voici...

Ce petit chemin.
Qui sent la noisette
Ce petit chemin
M'a tourné la tête
J'ai posé
Trois baisers
Sur tes cheveux frisés
Et puis sur
Ta figure
Toutes barbouillée de mûres
Pour nous observer,
Des milliers d'insectes
Se sont installés
Par dessus nos têtes
Mais un lièvre au passage
Nous a dit Soyez sages !
Ne crains rien
Prends ma main
Dans ce petit chemin !

Jean Nohain

segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

COUCHÉS DANS LE FOIN AVEC LE SOLEIL POUR TÉMOIN

Tela de Jules Bastien Lepage

Tela deVincent Van Gogh

Tela de Jean -François Millet

Couchés dans le foin
Avec le soleil pour témoin
Un p'tit oiseau qui chante au loin
On s'fait des aveux
Et des grands serments et des vœux
On a des brindill's plein les ch'veux
On s'embrasse et l'on se trémousse
Ah ! que la vie est douce, douce
Couchés dans le foin avec le soleil pour témoin.

Jean Anouilh

mar de sargaço

Tudo o que faço ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço.

Fernando Pessoa

As belas cores do deserto

Pour qu’un jour les enfants sachent qui vous étiez



Ils étaient vingt et cent, ils étaient des milliers
Nus et maigres, tremblants, dans ces wagons plombés
Qui déchiraient la nuit de leurs ongles battants
Ils étaient des milliers, ils étaient vingt et cent

Ils se croyaient des hommes, n’étaient plus que des nombres
Depuis longtemps leurs dés avaient été jetés
Dès que la main retombe il ne reste qu’une ombre
Ils ne devaient jamais plus revoir un été

La fuite monotone et sans hâte du temps
Survivre encore un jour, une heure, obstinément
Combien de tours de roues, d’arrêts et de départs
Qui n’en finissent pas de distiller l’espoir

Ils s’appelaient Jean-Pierre, Natacha ou Samuel
Certains priaient Jésus, Jéhovah ou Vichnou
D’autres ne priaient pas, mais qu’importe le ciel
Ils voulaient simplement ne plus vivre à genoux

Ils n’arrivaient pas tous à la fin du voyage
Ceux qui sont revenus peuvent-ils être heureux
Ils essaient d’oublier, étonnés qu’à leur âge
Les veines de leurs bras soient devenues si bleues

Les Allemands guettaient du haut des miradors
La lune se taisait comme vous vous taisiez
En regardant au loin, en regardant dehors
Votre chair était tendre à leurs chiens policiers

On me dit à présent que ces mots n’ont plus cours
Qu’il vaut mieux ne chanter que des chansons d’amour
Que le sang sèche vite en entrant dans l’histoire
Et qu’il ne sert à rien de prendre une guitare

Mais qui donc est de taille à pouvoir m’arrêter ?
L’ombre s’est faite humaine, aujourd’hui c’est l’été
Je twisterais les mots s’il fallait les twister
Pour qu’un jour les enfants sachent qui vous étiez

Vous étiez vingt et cent, vous étiez des milliers
Nus et maigres, tremblants, dans ces wagons plombés
Qui déchiriez la nuit de vos ongles battants
Vous étiez des milliers, vous étiez vingt et cent

Nuit et bruillard Jean Ferrat


domingo, 5 de Outubro de 2008

Vienna Teng - World Café Live

Eric's Song by Vienna Teng

Diana and her companions


Tela de Johannes Vermeer


Eu cantarei de amor tão docemente

Por uns têrmos em si tão concertados,

Que dois mil acidentes namorados

Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que amor a todos avivente,

Pintando mil segredos delicados,

Brandas iras, suspiros magoados,

Temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprêzo honesto

De vossa vista branda e rigorosa,

Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

Porém, para cantar de vosso gesto

A composição alta e milagrosa,

Aqui falta saber, engenho e arte.


Luís de Camões

AUTUMN ( VIVALDI FOUR SEASONS )

A magia dos números

Frutos

sábado, 4 de Outubro de 2008


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NOVO MUNDO

Terra edênica, adâmico ser —
Estupidez o preço que você vai pagar
Por esse inútil saber.

Robert Creeley

A FLOR




Penso que cultivo tensões
como flores
num bosque onde
ninguém vai.

Cada ferida — perfeita —,
fecha-se numa minúscula imperceptível pétala,
causando dor.

Dor é uma flor como aquela,
como esta,
como aquela,
como esta.

Robert Creeley

ALGUM LUGAR

Resolvi, eu
encontrei em minha vida
um centro e o finquei.

É a casa,
árvores além, um limite
de vista que a contorna.

O tempo
chega só como algum
vento, um pouco suspiro

amortecido. E
se a vida não fosse ?
quando algo estava para

acontecer, se eu o
tivesse fincado,
tivesse, insistente.

Nada existe que eu seja,
nada não. Um entre
lugar, eu sou. Sou

mais do que idéia, me-
nos do que idéia. Uma casa,
ventos, mas uma distância

- algo solto no vento,
sentindo o tempo como aquela vida,
anda para as luzes que ele deixou.

Robert Creeley

Mouloudji

sexta-feira, 3 de Outubro de 2008

Comme un tout petit coquelicot



Le myosotis, et puis la rose
Ce sont des fleurs qui disent quelque chose
Mais pour aimer les coquelicots
Et n'aimer que ça... faut être idiot!
T'as peut-être raison, seulement voilà:
Quand je t'aurai dit, tu comprendras
La première fois que je l'ai vue
Elle dormait, à moitié nue
Dans la lumière de l'été
Au beau milieu d'un champ de blé
Et sous le corsage blanc
Là où battait son coeur
Le soleil, gentiment
Faisait vivre une fleur
Comme un petit coquelicot, mon âme
Comme un petit coquelicot

C'est très curieux comme tes yeux brillent
En te rappelant la jolie fille
Ils brillent si fort que c'est un peu trop
Pour expliquer... les coquelicots!
T'as peut-être raison, seulement voilà
Quand je t'aurai dit, tu comprendras
J'en ai tant appuyé
Mes lèvres sur son coeur
Qu'à la place du baiser
Y'avait comme une fleur
Comme un petit coquelicot, mon âme
Comme un petit coquelicot

Ça n'est rien d'autre qu'une aventure
Ta petite histoire, et je te jure
Qu'elle ne mérite pas un sanglot
Ni cette passion... des coquelicots!
Attends la fin, tu comprendras
Un autre l'aimait qu'elle n'aimait pas
Et le lendemain, quand je l'ai revue
Elle dormait à moitié nue
Dans la lumière de l'été
Au beau milieu du champ de blé
Mais, sur le corsage blanc
Juste à la place du coeur
Y'avait trois gouttes de sang
Qui faisaient comme une fleur
Comme un petit coquelicot, mon âme
Comme un petit coquelicot
Comme un tout petit coquelicot

Marcel Mouloudji

Juliette Gréco

Les feuilles mortes



Oh! je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux où nous étions amis
En ce temps-là la vie était plus belle,
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
Tu vois, je n'ai pas oublié...
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Et le vent du nord les emporte
Dans la nuit froide de l'oubli.
Tu vois, je n'ai pas oublié
La chanson que tu me chantais.

REFRAIN:
C'est une chanson qui nous ressemble
Toi, tu m'aimais et je t'aimais
Et nous vivions tous deux ensemble
Toi qui m'aimais, moi qui t'aimais
Mais la vie sépare ceux qui s'aiment
Tout doucement, sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Les pas des amants désunis.

Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Mais mon amour silencieux et fidèle
Sourit toujours et remercie la vie
Je t'aimais tant, tu étais si jolie,

Comment veux-tu que je t'oublie?
En ce temps-là, la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui
Tu étais ma plus douce amie
Mais je n'ai que faire des regrets
Et la chanson que tu chantais
Toujours, toujours je l'entendrai!

Jacques Prévert

quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

Rosas

Charles Trenet - la mer

quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

Em silêncio descobri essa cidade no mapa



Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.

Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.

Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue - peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.

Cidade que aperto, batendo as asas - ela -
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.

Herberto Helder





"Cabe aos artistas do pensamento fundar o alfabeto dos conceitos, a ordem das unidades fundamentais do pensamento - com elas se constrói o edifício da palavra."

Velimir Khlebnikov

Amor sin palabras - "A son of lilies" . Shao Rong

Mon amour, mon ami - Marie Laforet