quarta-feira, 29 de Abril de 2009
segunda-feira, 27 de Abril de 2009
sexta-feira, 24 de Abril de 2009
quarta-feira, 22 de Abril de 2009
Queixa das almas jovens censuradas
Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte
Natália Correia, in "O Nosso Amargo Cancioneiro"
segunda-feira, 20 de Abril de 2009
domingo, 19 de Abril de 2009
sábado, 18 de Abril de 2009
OS ANÉIS FATIGADOS
e há ânsias de morrer, combatido por duas
águas unidas que jamais hão-de istmar-se.
Há ânsias de um beijo enorme que amortalhe a Vida,
que acaba na áfrica de uma agonia ardente,suicida!
Há ânsias de... não ter ânsias, Senhor,
a ti aponto-te com o dedo deicida:
há ânsias de não ter tido coração.
A primavera volta, volta e partirá.
E Deus,
curvado em tempo, repete-se, e passa, passa
carregando a espinha dorsal do Universo.
Quando as têmporas tocam seu lúgubre tambor,
quando me dói o sonho gravado num punhal,
há ânsias de ficar plantado neste verso!
César Vallejo
sexta-feira, 17 de Abril de 2009
quinta-feira, 16 de Abril de 2009
quarta-feira, 15 de Abril de 2009
RESERVADO AO VENENO
Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras
António José Forte, in “uma faca nos dentes” & etc, 1983
terça-feira, 14 de Abril de 2009
segunda-feira, 13 de Abril de 2009
domingo, 12 de Abril de 2009
sábado, 11 de Abril de 2009
V
Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos.
Esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas
lâmpadas, todas as coisas.
As coisas que são uma só no plural dos nomes.
- E nós estamos dentro, subtis, e tensos
na música.
Esta linguagem era o disposto verão das musas,
o meu único verão.
A profundidade das águas onde uma mulher
mergulha os dedos, e morre.
Onde ela ressuscita indefinidamente.
- Porque uma mulher toma-me
em suas mãos livres e faz de mim
um dardo que atira. - Sou amado,
multiplicado, difundido. Estou secreto, secreto-
e doado às coisas mínimas.
Na treva de uma carne batida como um búzio
pelas cítaras, sou uma onda.
Escorre minha vida imemorial pelos meandros
cegos. Sou esperado contra essas veias soturnas, no meio
dos ossos quentes. Dizem o meu nome: Torre.
E de repente eu sou uma torre queimada
pelos relâmpagos. Dizem: ele é uma palavra.
E chega o verão, e eu sou exactamente uma Palavra.
- Porque me amam até se despedaçarem todas as portas,
e por detrás de tudo, num lugar muito puro,
todas as coisas se unirem numa espécie de forte silêncio.
Essa mulher cercou-me com as duas mãos.
Vou entrando no seu tempo com essa cor de sangue,
acendo-lhe as falangetas,
faço um ruído tombado na harmonia das vísceras.
Seu rosto indica que vou brilhar perpetuamente.
Sou eterno, amado, análogo.
Destruo as coisas.
Toda a água descendo é fria, fria.
Os veios que escorrem são a imensa lembrança. Os velozes
sóis que se quebram entre os dedos,
as pedras caídas sobre as partes mais trêmulas
da carne,
tudo o que é úmido, e quente, e fecundo,
e terrivelmente belo
- não é nada que se diga com um nome.
Sou eu, uma ardente confusão de estrela e musgo.
E eu, que levo uma cegueira completa e perfeita, acendo
lírio a lírio todo o sangue interior,
e a vida que se toca de uma escoada
recordação.
Toda a juventude é vingativa.
Deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura.
Um dia acorda com toda a ciência, e canta
ou o mês antigo dos mitos, ou a cor que sobe
pelos frutos,
ou a lenta iluminação da morte como espírito
nas paisagens de uma inspiração.
A mulher pega nessa pedra tão jovem,
e atira-a para o espaço.
Sou amado. - E é uma pedra celeste.
Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia
de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.
Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
Depois levanta-se com os olhos imensos
e incendeia as casas, grita abertamente as giestas,
aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado.
Amam-me; multiplicam-me.
Só assim eu sou eterno.
Herberto Helder
sexta-feira, 10 de Abril de 2009
quinta-feira, 9 de Abril de 2009
segunda-feira, 6 de Abril de 2009
domingo, 5 de Abril de 2009
Espaço curvo e finito
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.
José Saramago
(In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição)
sábado, 4 de Abril de 2009
Folha sobre folha
quarta-feira, 1 de Abril de 2009
Haicais
uma folha salta
o velho lago
pisca o olho
chuva fina
tarde esfria
todo o lago se arrepia
nuvem grávida
ao entardecer
primeira chuva de verão
amor de verão
pipa rompeu a linha
fugiu com o vento
luar na relva
vento insone
tira o sono das flores
portas batendo
fugindo da chuva
o vento
na rua deserta
brincadeira de roda
vento se sujando de terra
relampejou
sobre as árvores
a tarde trincou
tarde de chuva
ninguém na rua
guarda a chuva
raios!
alguém rasgou
o terno azul da tarde
sol nas poças d'água
carro passa
espalha tarde na calçada
lua mínima
a tarde minguante
abre um sorriso
nenhum pio
depois do trovão
apenas uma fragrância
velhinhos na praça
só a tarde
não envelhece
sol atrás da cortina
dizendo baixinho:
— já é dia
amanhece
sol atrás do prédio
vestindo-se de luz
sol e margaridas
conversa clara
na janela da sala
terreno baldio
o poente
e uma placa: vende-se
cada galho pro seu lado
mas na cor das flores
nenhum discorda
folia na sala
no vaso com flores
três borboletas
vaga tristeza
vaga lume
vaga só
outono
outrora
era outro
flores ao vento
na cortina da janela
cores da primavera
velho caminho
sol estende seu tapete de luz
passos de passarinho
manhã de sol
sombra do pardal no poste
primeira visita do dia
de manhã: mia, mia, mia
só depois de comer,
mia um bom dia
um pescador remando
o mar rimando
alguém admirando
lua nublada
no alto da montanha
a solitária árvore
ontem à noite
sonhei de corpo inteiro
— acordei com teu cheiro
antes de dormir
dois ou três haikais
prece sem pressa
madrugada barulhenta
manhã entalada
na garganta do galo
Borboletas amarelas
no ipê, revoada
de flores apaixonadas
Alonso Alvarez (1956-)
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